A Depressão em todas as fases da vida

entendendo a depressão em todas as fases da vida
Artigo escrito pela Psicanalista Patrícia Mazeron

A Depressão em todas as fases da vida

A palavra depressão atualmente é usada para tudo. A pessoa está triste e se diz deprimida. Mas a depressão é uma doença grave que pode trazer prejuízo no dia a dia das pessoas podendo comprometer sua qualidade de vida.

Nos adultos é mais fácil de ser diagnosticado, pois estes são capazes de perceber e queixar-se, ou mesmo a família e amigos percebem que algo não está bem.

Depressão nas Crianças

Com as crianças isso é diferente, pois pode ser confundida com o seu jeito de ser. Mesmo sofrendo não entendem os sintomas como resultado de uma doença e que podem ser aliviados. As crianças podem calar-se, retrair-se e os pais podem custar a dar-se conta que o filho (a) precisa de ajuda. A criança tem grande dificuldade de nomear as suas emoções e expressar que está deprimida. Depende que o adulto dê o significado àquilo que se chama tristeza, angústia, ansiedade. Por isso ela coloca no corpo o sofrimento e queixa-se de problemas físicos, por serem mais fáceis de explicar.

Geralmente a criança está em movimento buscando descobrir o mundo. Quando se sente ameaçada ou insegura tende a retrair-se e o desejo de exploração do meio ambiente desaparece. Por isso deve-se ficar atento quando ela começa a ficar:

  • Quieta;
  • Parada;
  • Com medo de separar-se das pessoas que lhe servem de referência (pai, mãe, cuidador);
  • Alteração na qualidade do sono (sono interrompido por pesadelos, medo de ficar sozinho na hora de dormir e choro assustado nesta hora);
  • Ansiedade de separação quando começa a frequentar a escola;
  • Medo de comer;
  • Escolha seletiva de alimentos;
  • Reclamações constantes de dores de cabeça ou de barriga;
  • Demonstra que nunca está bem;
  • Não se interessa por nada e não há brincadeira que a faça sentir-se melhor;
  • Fica parada e quer sempre alguém que confie por perto;
  • Podem perder a iniciativa;
  • Apresentam dificuldades de aprendizagem;
  • Não encaram os desafios (ex: ter medo de dormir na casa de um amigo e não encarar enfrentar este medo. Retrai-se e não vai);
  • Baixa autoestima;
  • Sentimento de incapacidade.

A criança deve ser tratada o mais rápido possível. Caso isso não aconteça vai crescer acreditando que a alegria aparente das outras pessoas não foi feita para ela e mais tarde na adolescência ficará mais propensa ao consumo de drogas, na tentativa de buscar algo que alivie seu permanente desconforto, dando a falsa impressão que o problema está resolvido e isso dificulta ainda mais a situação.

Depressão nos adolescentes

O adolescente já costuma sofrer com todas as mudanças pertinentes desta fase (o luto pela perda do corpo infantil, as novas aquisições e sensações corpóreas e emocionais, os novos desafios da vida e da escola, os novos desafios da vida social, a desidealização dos pais e outros sentimentos intensos), se já vem de uma infância em que os seus conflitos não foram tratados de maneira adequada pode aqui neste período ser desencadeada a depressão.

Muitas vezes o adolescente não apresenta sinais explícitos de sua depressão e como está em um processo de desidealização dos pais, como escrevi acima, busca entre os colegas e amigos novas referências. E muitas vezes estes grupos não conseguem amenizar a dor deste período.

SINAIS DE DEPRESSÃO NA ADOLESCÊNCIA:

  • As meninas costumam internalizar as emoções, se trancam no quarto e choram.
  • Os meninos podem se tornar extremamente agressivos, ficando na defensiva o tempo todo e brigam com todo mundo. Basta alguém lhe dizer bom dia, para se sentirem acusados de algo.
  • Ficam rebeldes e desafiadores
  • Cria problemas na escola, em casa e entra em conflito com as figuras hierárquicas.
  • Irritam-se com facilidade e as reações são exageradas.
  • Age como se a melhor defesa fosse o ataque.

O sociólogo Emile Durkheim assinalou, no século XIX, um conceito de laço social que ainda hoje nos é muito útil. O conceito diz que quanto maiores os laços sociais em uma determinada comunidade, menores seriam as taxas de mortalidade por suicídio. Este conceito sociológico pode ser pensado em um nível individual, ou seja, quanto menos laços sociais tem um indivíduo, maior o risco de suicídio.

SUICÍDIO

Felizmente o suicídio infantil é raro. A criança tem uma visão diferente da morte, a encara como um sono longo do qual irão acordar e não como o fim do sofrimento. Nesta fase é comum surgir um comportamento PARASSUICIDA, ou seja, por não conseguirem se proteger são frequentes acidentes como cair da árvore, ser atropelado, cair de bicicleta, etc. mal se refaz de um acidente e se mete em outro.

Na adolescência, pelo imediatismo em resolver as situações que tanto incomodam, em um momento de extrema angústia podem cometer o suicídio. O suicídio entre adolescentes é um problema mundial.

Nos estados Unidos é a segunda causa de morte de adolescentes entre 15 e 19 anos, atrás apenas de acidentes com cerca de 1700 casos a cada ano. No Brasil, são 667 mortes anuais. (Revista Veja de 26 de abril de 2017).

Segundo Ricardo Nogueira, psiquiatra e coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do Hospital Mãe de Deus, o suicídio é a principal causa de morte no Estado entre meninas de 14 a 19 anos e a terceira causa entre meninos (homicídio e trânsito vêm antes, mas podemos pensar que se colocam em situações de risco/ Parassuicídio).

É bastante difícil perceber neles uma ideação suicida estruturada e planejada.  Nesta fase é comum o envolvimento com gangues. Dão a impressão que se sentem atraídos pela ideia da morte e como não tem coragem de se matar se enredam em situações de risco (por exemplo: um tiro disparado por outra pessoa como uma melhor solução para o problema).

O que pode desencadear a depressão em crianças e adolescentes, não é diferente dos motivos no adulto. Fatores como lutos, perdas, separação dos pais, dificuldade de adaptação a situações novas, mudança de escola e de domicílio podem gerar estresse, que vai desgastando a criança ou o adolescente o que pode conduzindo a um quadro depressivo.

DEPRESSÃO EM ADULTOS

Devemos ficar atentos aos sinais que podem denunciar uma depressão. Alguns deles são de presença constante como, por exemplo:

  • Baixa auto-estima;
  • Sentimento de culpa sem causa definida;
  • Grande intolerância a perdas e frustrações;
  • Alto grau de exigência consigo próprio;
  • Submissão ao julgamento dos outros;
  • Sentimento de perda do amor e
  • Permanente estado de que há algum desejo inalcançável.

 DEPRESSÃO EM IDOSOS

Como se sabe, este é um período da vida marcado, do ponto de vista normativo das culturas ocidentais, por um conjunto de desafios, entre os quais destacaremos:

  • O envelhecimento e, frequentemente, a doença, acarretando limitações funcionais físicas e psicológicas a par de alterações da vivência do corpo e da sua imagem;
  • A mudança da estrutura de vida, implicando a perda de hábitos, rotinas, ocupações e, talvez mais importante ainda, a perda de papéis sociais e familiares, agravada ainda pelo desaparecimento da família alargada que demasiadas vezes bota o idoso ao isolamento; e
  • A perda de pessoas significativas, seja o cônjuge ou sejam outros elementos da rede social mais ou menos próxima

Estes desafios são ainda atravessados por um outro problema, que porventura introduz a verdadeira marca distintiva da terceira idade: a proximidade da morte, seja ela anunciada, imaginada, evitada, desvalorizada ou mesmo contestada. A verdade é que a adaptação aos desafios da terceira idade é, dentro do previsível, a adaptação a uma estrutura de vida final.

E o que tem sido, então, a intervenção na depressão do idoso?

Com efeito, parece mais relevante, neste período da vida, que os resultados terapêuticos sejam imediatos do que duráveis, o que não invalida que se procure sempre, na terceira idade como nos outros períodos do ciclo vital, que os progressos sejam o mais imediatos e o mais duráveis possível.

Criar e recriar sentido para a experiência depressiva, ou seja, trata-se de criar condições para a emergência de processos mais saudáveis de auto-organização.

A terceira idade convida-nos a uma espécie de “diálogo irrecusável” com a morte, agora mais indesmentível do que antes. Mas o diálogo com a morte equivale ao diálogo com a vida. E é na plena assunção da sua finitude que o ser humano mais aprofunda a relação e o comprometimento com a vida.

Mitos sobre o suicídio

(Tabela retirada da Cartilha Suicídio: Informando para Prevenir, produzida pela Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina)

MITOS VERDADES
O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio. FALSO. Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental o desejo de se matar desaparece.
Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida. FALSO. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco.
As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção. FALSO. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores, frequentemente aos profissionais de saúde, seu desejo de se matar.
Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou. FALSO. Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidarse pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviado simplesmente por ter tomado a decisão de se matar.
Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive à uma tentativa de suicídio, está fora de perigo. FALSO. Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período durante o qual a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco.
Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco. FALSO. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.
É proibido que a mídia aborde o tema suicídio. FALSO. A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saú- de pública e abordar esse tema de forma adequada. Isto não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda etc.

Principais fatores de risco associados ao comportamento suicida

Doenças mentais Aspectos sociais
• Depressão;

• Transtorno bipolar;

• Transtornos mentais relacionados ao uso de álcool e outras substâncias;

• Transtornos de personalidade;

• Esquizofrenia;

• Aumento do risco com associação de doenças mentais: paciente bipolar que também seja dependente de álcool terá risco maior do que se ele não tiver essa dependência.

• Gênero masculino;

• Idade entre 15 e 30 anos e acima de 65 anos;

• Sem filhos;

• Moradores de áreas urbanas;

• Desempregados ou aposentados;

• Isolamento social;

• Solteiros, separados ou viúvos;

• Populações especiais como: indígenas, adolescentes e moradores de rua.

Aspectos psicológicos Condição de saúde limitante
·         Perdas recentes;

• Pouca resiliência;

• Personalidade impulsiva, agressiva ou de humor instável;

• Ter sofrido abuso físico ou sexual na infância;

• Desesperança, desespero e desamparo.

• Doenças orgânicas incapacitantes;

• Dor crônica;

• Doenças neurológicas (epilepsia, Parkinson, Hungtinton);

• Trauma medular;

• Tumores malignos;

• AIDS.

Suicidabilidade: Ter tentado suicídio, ter familiares que tentaram ou se suicidaram, ter ideias e/ou planos de suicídio