Artigos Psicanálise


As diversas faces do desejo nos Tratamentos de Reprodução Assistida

Artigo escrito pelas psicanalistas Katya de Azevedo Araújo, Mara Horta Barbosa, Maria Isabel Pacheco, Patrícia Mazerom e Renata Viola Vives

Reproducao-AssistidaNa busca pela Reprodução Assistida vemos, por vezes, pacientes recorrendo à tecnologia de forma quase irracional, chegando a dispor, para isso, não só de todo o montante de seus bens materiais, mas também da integridade física do próprio corpo.

Joana tem 44 anos. Fez quatro fertilizações in vitro, com doação de sêmen, porque desejava ser mãe. Não obteve sucesso. Estava encaminhando-se para o quinto procedimento, quando foi internada às pressas. Estava com colesterol altíssimo, com problemas renais e no fígado devido à sobrecarga de medicamentos. Entrou em coma. Quase morreu, porém relata que em nenhum momento deu-se conta da gravidade da situação, pois só tinha em mente “ser mãe”. Atualmente, em parte recuperada dos problemas de saúde, pensa em adotar uma criança para alcançar seu objetivo.

Para Maldavsky (2000) o corpo é uma unidade complexa, sendo possível precisar sua função e sua eficácia na constituição, desenvolvimento e atividade da vida anímica e nos processos subjetivos. Em primeiro lugar, o corpo tem valor de fonte química da pulsão e também de objeto da mesma; também funciona como estrutura que processa as excitações das fontes pulsionais. Essa estrutura carrega um saber filogenético, que é inerente à espécie e que predetermina certas orientações universais na vida psíquica. Por último, o corpo é o lugar de diversas ações com as quais se pretende tramitar as exigências endógenas. O corpo também pode sofrer alterações como consequências dos conflitos, sobretudo as somatizações.

É na superfície corpórea e por suas sensações de prazer e desprazer, que Freud (1905) definiu as zonas erógenas, sendo que a constituição de uma zona erógena requer processos projetivos e de excitações periféricas.

Para Maldavsky (2000) as erogeneidades oral, anal e uretral são ordenadoras de um conjunto vasto de outras sensualidades, sensorialidades e motricidades de caráter ativo ou passivo. A tudo isso se agrega a erogeneidade fálica, possivelmente a única não acoplada a autoconservação. Por fim, também se juntará a isso uma erogeneidade genital, que implica um desempenho na conservação da espécie.

A pulsão de conservação da espécie, que se liga com a erogeneidade fálico-genital, quando sobrevêm as mudanças da puberdade, pode estar a serviço de neutralizar a pulsão de morte. Ela predetermina o valor de cada erogeneidade no marco da reprodução e reúne em torno da autoconservação e da sexualidade um saber filogenético. Essa pulsão pode entrar em luta com alguma pulsão parcial, bem como pode entrar em conflito com a pulsão de autoconservação, quando a procriação resulta numa ameaça direta ou indireta à própria vida. Sobretudo, a pulsão de conservação da espécie se opõe a pulsão de morte, onde já não se trata de preservar uma vida singular e sim de preservar a espécie, da qual cada corpo é um representante.

Lembremos também que para o mesmo autor a libido pode ficar fixada a uma fase inicial do desenvolvimento e, portanto, investir duramente os órgãos internos, criando processos tóxicos.

A substituição do princípio do prazer-desprazer pelo do masoquismo como orientador da sexualidade leva a uma estase da pulsão, seja da sexualidade ou da autoconservação, ou ambas ao mesmo tempo. A estase é entendida como a impossibilidade de tramitação psíquica, sobretudo orgânica, para uma erogeneidade dada. Se a estase afeta o narcisismo, de acordo com Freud, podem dar-se manifestações hipocondríacas; se, diz respeito à libido objetal, surgem sintomas de neurose atual. A questão que se apresenta é que essas experiências podem ou não ser reprocessadas psiquicamente e podem ter um caráter transitório ou duradouro. Por vezes irão surgir estados de angústia automática, atribuídas ao desvalimento psíquico ante a pulsão sexual.

Maldavsky (1994), quando propõe as “patologias do desvalimento”, coloca que essas pessoas carecem de uma vida fantasmática, e que essa carência simbólica se traduz por uma falha no registro dos afetos e conseqüentemente o empobrecimento da subjetividade. A raiz disso, ainda segundo o autor, seriam falhas estruturais ocorridas nos primórdios da vida do sujeito, onde sua economia pulsional está voltada para manter o equilíbrio das funções orgânicas basais (temperatura corporal, freqüência cardíaca, freqüência respiratória, etc.). Ou seja, uma época regida pela demanda (corporal) anterior ao desejo. O autor diz que a satisfação dessa demanda e manutenção do equilíbrio homeostático depende de um ambiente empático e continente ao sujeito. Havendo falha nesta função do ambiente, o ego primitivo do bebê fica a mercê de um “quantum” de energia que é incapaz de processar, levando ao traumático (por excesso) e a um “transbordamento” dessa energia para o corpo, que é então tomado como objeto de catexia da pulsão. Maldavisky (2000) nomeia essa fase de fase libidinal intrassomática, onde a libido está a serviço do equilíbrio orgânico.

Scherer et al. (2013) coloca que pacientes desvalidos são desprovidos de uma demanda psíquica e geralmente chegam a tratamento por questões clínicas, ligadas ao corpo. Postulam que a defesa característica da fixação à fase libidinal intrassomática é a desestimação do afeto, podendo estar associado também a desestimação da realidade e/ou instância paterna e a desmentida, o que caracteriza então os quadros de desvalimento. É o fracasso de um desses mecanismos de defesa que levaria a algum desequilíbrio orgânico, que gera então a busca de algum tipo de tratamento clínico.

Freud em 1894 já apresentava a ideia de uma defesa muito mais poderosa e bem-sucedida, onde o ego rejeitaria a representação incompatível, juntamente com seu afeto e se comportaria como se a representação jamais tivesse existido.

Essa busca desmedida, que não observa nem mesmo os limites da própria saúde corporal, faz questionar seu fim em si, que é a gestação e o futuro bebê. O que se observa, é que o bebê imaginário aparece muito pouco neste cenário, quase ausente no discurso, que é pontuado por ecografias,

medicações, exames laboratoriais e prazos. Isso leva ao questionamento se haveria um suporte simbólico sustentando essa busca, que não respeita nem mesmo a própria integridade corporal do sujeito, podendo levar até a morte em nome da vida.

Perpassando pelas diversas faces do desejo, nos deparamos com o desejo narcísico, com o desejo edípico e nos questionamos sobre que desejo, se é que poderíamos chamá-lo assim, sustenta esta busca por um filho a qualquer preço e a qualquer custo, colocando à própria vida em risco?

Seria possível inferir que algumas das mulheres inférteis que buscam reprodução assistida possam fazê-lo movidas não por um desejo, mas por uma demanda – necessidade (orgânica) característica da fixação intrassomática, busca esta, ligada a descarga pulsional somática, onde o corpo é o objeto da pulsão, que é levado até a exaustão? Ou a busca por tratamentos de reprodução assistida que chegam a por em risco o autoconservativo tem como motivação primordial a conservação da espécie, ou seja, isso que se encontra inscrito em cada um de nós, filogeneticamente?

Na tentativa de apreender a motivação que impulsiona a mulher na busca pela maternidade talvez nos escape ou neguemos, uma “ordem interna” que possa estar intimamente imbricada nesta busca. Nos referimos aqui a algo relacionado ao inato.O homem antes de tudo é um ser biológico.

Se pudermos pensar que em uma situação hipotética de extremo estresse e risco de vida, todos os preceitos éticos e morais do indivíduo ficam abalados, levando-o a agir de forma irracional para manter a própria sobrevivência ou de sua espécie, não temos como negar que também somos guiados por forças instintivas que não domamos.

É possível pensarmos que talvez estejamos negligenciando estas forças e mandatos filogenéticos, relacionados à maternidade e perpetuação da espécie.

Estes são questionamentos que levantamos e seguimos a pensar a partir da teoria e da clínica.

Referências Bibliográficas:

Freud, S. (1894) As Neuropsicoses de defesa.In: _______Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Ed. Std.RJ: Imago, 1974.V.I.

Freud,S. (1895) Projeto para uma Psicologia Científica. In: __________Obras Psicológicas de Sigmund Freud. Ed. Std. RJ: Imago, 1974. V.I.

Maldavsky, D. Pesadillas em vigília. Buenos Aires: Amorrortu, 1994.

Maldavsky, D. Lenguaje, pulsiones, defesas. Buenos Aires: Nueva Vision, 2000.

Scherer, C. etal. Des- Afetos: pensando as patologias do Desvalimento. In: Psicanalise- Revista da Sociedade Brasileira de Psicanalise de Porto Alegre: vol.14, n.2, 2013.



As Patologias Atuais e a Técnica Psicanalítica

Artigo escrito pela Psicanalista Renata Viola Vives 

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Atualmente, costumamos nos questionar se vivemos uma nova era de patologias psíquicas, o que levaria a uma mudança clara da técnica ou se vivemos com novos coloridos e roupagens os mesmos conflitos das famosas histéricas freudianas.

No artigo “Sobre a clínica psicanalítica da atualidade: novos sintomas ou novas patologias? “ Aurea Lowenkron –  autora –  enfatiza que desde os seus primórdios, a psicanálise reconheceu a existência de terrenos  não marcados por inscrições codificadas, reconhecidos na formação dos sintomas das neuroses atuais.Neuroses desprovidas de atividade criadora, caracterizadas pela impossibilidade de efetuar a passagem da ordem da excitação sexual somática para o registro psíquico. Das falhas no processo de simbolização resultam sintomas que não são portadores de sentido. A magia das palavras não opera da mesma maneira nesses casos. A autora questiona-se: Há especificidades nas formas de sofrimento com que nos deparamos hoje? Ou as mudanças se referem às  manifestações sintomáticas?

Afirma que, para alguns autores o que observamos hoje, trata-se de novas apresentações sintomatológicas e de novas descrições  das  afecções pré-existentes,  exacerbadas pelas condições da vida contemporânea.

  • “Na era atual, cujos ideais são pautados por exigências da sociedade de consumo, que promove a ilusão de liberdade individual  irrestrita, o  mal estar assume muitas vezes formas de apatia, vazio interior, solidão e fracasso.” (p. 997)

O fato é que a psicanálise busca ver o indivíduo e, como  nos diz Freud,  na Conferência XVII, se existe um sentido para o sintoma,  e que este possui  uma conexão com a experiência do paciente , então não devemos nos preocupar com a (psico)patologia – sofrimento do indivíduo, ao invés de buscar uma categorização para os sintomas?



O conceito de desejo em Psicanálise

Artigo escrito pelas Psicanalistas da SBPdePA: Maria Isabel Pacheco / Patricia Mazeron  / Renata Vives /Katya Araujo 

artigo desejo psicanaliseO conceito de desejo, na teoria freudiana, aparece mais na primeira tópica e é nesta que Freud implanta a teoria representacional; quando falamos de desejo, falamos de investimento da representação, sendo que é a representação que caracteriza o fenômeno psíquico.

O desejo nasce quando ocorrem as primeiras vivências de satisfação, com a formação do aparato psíquico, ou seja, o surgimento do desejo inaugura o psiquismo e será o motor deste aparato.

Segundo Valls (1995) a experiência de satisfação funda um complexo representacional que se apresenta com três tipos de representações:

1) A representação do objeto de satisfação, ou seja, a primeira que se ativa quando se reanima o desejo;

2) A representação dos movimentos que se fizeram com este objeto e o que este fez;

3) A representação da sensação de descarga.

A necessidade deixa registros na memória, que ficam associados às percepções geradas pela experiência de satisfação (imagens mnêmicas). Na próxima aparição da necessidade, em função do enlace estabelecido, ocorre um movimento psíquico que irá querer investir novamente na imagem mnêmica, ou seja, reestabelecer a situação da primeira satisfação.

“Uma moção desta índole é o que chamamos desejo; a reaparição da percepção é o cumprimento do desejo e o caminho mais curto para este é o que leva desde a excitação produzida pela necessidade até o investimento pleno da percepção”. (Valls, 1995,citando Freud em Interpretação dos sonhos, p. 194)

O desejo é o desejo de voltar a reviver a experiência de satisfação, aquela primeira vivida no vínculo com o outro e que agora é o objeto desejado.

“Cada vivência de satisfação irá deixando novos desejos; as pulsões de auto-conservação vão ficando mais repetitivas enquanto o objeto será mais fixo”. (Valls, 1995, pg. 194).

Já as pulsões sexuais irão mudando os desejos conforme as zonas erógenas do período até chegar à supremacia fálica, quando se organizam em uma direção e ocorre a eleição de objeto, que por ser incestuoso deverá ser reprimido. O objeto das pulsões sexuais irá se modificando ao longo do desenvolvimento, mas vai diminuindo conforme vai produzindo fixações, podendo ficar no próprio corpo.

A escolha de objeto sexual (externo) se sustenta em parte nas pulsões de auto-conservação e em parte no próprio corpo, onde o objeto deixou seus registros. Então “a história do corpo e sua representação irão definindo o Eu”. (p.195)

Os desejos inconscientes dos objetos poderão chegar ao pré-consciente, a partir do período pré-edípico, pois com a aquisição da linguagem, podem ligar-se às representações palavra gerando assim os desejos pré-conscientes.

“Depois do complexo de Édipo o aparato psíquico se cindirá e múltiplos desejos (incestuosos, parricidas e os infantis) serão reprimidos, passarão ao estado de inconscientes e lá permanecerão.”

O Ego tira o investimento da representação-palavra, nega sua existência e não reconhece os desejos como seus. Mas estes desejos permanecerão querendo retornar, diretamente ou por meio de deslocamento pré-consciente que os representem e ao mesmo tempo evitem a censura. Esse retorno origina os sonhos, atos falhos, sintomas neuróticos, etc.

Freud menciona nas Novas Conferências Introdutórias (1933), os desejos do superego contidos nos sonhos punitivos, de auto-castigo. Esses desejos são resultantes de sentimentos de culpa, que mesmo desconhecido pelo ego funcionam como desejo que se satisfaz periodicamente com o sofrimento do próprio Ego. O sofrimento impresso depende, provavelmente, dos diferentes graus de mistura de Eros e Pulsão de Morte que estão em jogo (sadismo do superego e masoquismo do ego).

Em termos gerais, segundo Valls (1995) quando nos referimos a desejo inconsciente nos referimos a desejo sexual, mesmo que a posse de representação (de coisa e de palavra) dê à pulsão de autoconservação característica desejante.

Segundo Freud, não pode haver desejo correspondente à pulsão de morte, pois não há no Inconsciente representação coisa desta (morte). “É uma contradição falar de uma vivência de morte que deixe sua marca no aparato psíquico.” O que pode acontecer é uma necessidade inconsciente de castigo que provém do superego.

Paradoxalmente sabemos da existência de uma pulsão de morte “muda”, que se falasse seria através das representações (de coisa e de palavra) do desejo sexual, com o qual está misturado.

O conceito de desejo se confunde com o de pulsão, bem como o de libido sexual, mas são coisas diferentes. Pulsão, para Freud, “é um conceito limite entre o somático e o psíquico. O desejo relaciona-se mais com o lado das representações. Por isso Freud

fala em “satisfação alucinatória de desejo” e não em “satisfação alucinatória de pulsões”.

Valls (1995), ao diferenciar os conceitos de libido e desejo, nos aponta a dificuldade em falar de desejo narcísico puro, pois afirma que poderia fazê-lo como extensão do conceito de desejo homossexual, mas que mesmo assim ainda estaria referindo se a um objeto. Exemplifica esta afirmação com a dependência da criança ao amor do objeto no período de latência em que pode tomar para si, como próprios, os desejos do objeto. A criança, em geral, resigna suas pulsões para garantir o amor materno.

Conforme Valls (1995) poderíamos pensar, portanto, que a necessidade do amor do objeto não é narcisista no sentido mais restrito do termo, uma vez que, desejar ser amado pelo objeto, ou desejar ser o ideal, está constituído por marcas de objetos do passado infantil ou da onipotência perdida. Assim, “são desejos narcisistas, porém nunca falta o rastro do objeto em todas as complexizações do desejo”.

De acordo com Hanns (1996) Wunsch é um substantivo que é traduzido por desejo, sendo que este dirige-se ao que é almejado, diferenciando-se no texto freudiano de lust, que significa vontade, desejo e prazer e de Begierde, que representa desejo intenso, sofreguidão.

É utilizado para expressar algo menos imediato, objetos que se apresentam para o sujeito como um ideal, algo sonhado, sendo este de caráter imaginário. Difere-se do sentido em português, onde desejo é usado como um querer mais imediato e referindo-se também à sexualidade, sentido este que não está contido em alemão.

Tanto no Projeto para Psicologia Científica (1895) quanto na Interpretação dos Sonhos (1900) Freud usa o termo Wunsch no sentido de desejo alucinatório. Coloca ainda em 1900 que nada, senão o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação. O termo Wunsch está presente na obra de Freud desde suas primeiras formulações sendo que é no texto da Interpretação dos Sonhos que é elaborado mais detalhadamente. Hanns (1996) salienta que de forma geral pode-se dizer que o “desejo” circula preponderantemente na esfera representacional, nas regiões do “pensamento”, do “sonho”, da “fantasia”, do “idealizado”, do “imaginado”, do “alucinado” e da “loucura”. Segundo o mesmo autor, Freud, muito raramente emprega o termo “satisfação” (Befriedigung) em conexão com desejo (Wunsch), sendo a palavra “realização” como também a palavra “desejo” pertencentes à esfera do idealizado, do almejado e do anímico.



Narcisismo na contemporaneidade e nas Relações Intersubjetivas

 Artigo escrito por Carlos Marcírio Naumann Machado (Psicólogo Clínico CRP – 07/10360 / Membro Aspirante Graduado (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre).

narcisismoUm dos filmes mais vibrantes dos últimos tempos e que bateu recordes de audiência e de tempo de exibição, no nosso meio, foi Relatos Selvagens. Um dos motivos presumíveis para tanto é a aprimorada demonstração da convivência dialética entre a luta pulsional de dominar e, ao mesmo tempo, da necessidade de satisfação narcisista que aparece em cada sujeito. Em todas as seis antologias apresentadas nesse filme, esse jogo dialético entre as correntes pulsionais e narcísicas sobressai. Dito de outra forma, os movimentos pulsionais objetivariam não apenas diminuir as tensões internas, mas, também, e ao mesmo tempo, satisfazer (talvez ilusoriamente), as dimensões das buscas de completude narcísica de cada um. Ou seja, o permanente embate dos personagens é em cima de competir e ganhar. E, com isso, aumentar a autoestima. Pode-se supor que a excitação com essa obra cinematográfica advém, então, dela imitar de forma caricatural a vida de fantasia que todos possuímos e que costura as perspectivas pulsionais e narcísicas.

Qual seria o diagnóstico encontrado em alguns dos principais personagens? Seriam narcisistas? Seriam núcleos narcisistas em pacientes neuróticos? Seriam traços de caráter narcisista que, em situações de intensa frustração, pressão e ansiedade, viriam à tona como defesa? São dúvidas que a gente tem e que às vezes ficam sem resposta. Mas, sem dúvida, esses cenários permeiam as relações humanas cotidianas.

Presumo que, nessa linha de pensamento, o estudo dessa temática pode nos ser útil. Considerando-se a clínica psicanalítica contemporânea, além de interessante, pode ser produtivo estudar a especificidade do tema, já que parece haver evidências substanciais de que os traços narcísicos são muito comuns no momento presente, permeando sobremaneira o nosso universo cultural. Imagino, inclusive, que as inúmeras acepções vinculadas ao termo “narcisismo” necessitem ser mais bem elucidadas, já que essa expressão, no ambiente psicanalítico, ainda é, algumas vezes, carregada com colorido pejorativo. Conjeturo, inclusive, que estudar autores com diferentes entendimentos teóricos possa agregar consistência às consideráveis ferramentas clínicas já existentes.

A contemporaneidade configura-se estimulando a cultura do narcisismo. As diferenças tendem a ser negadas, de gênero, de gerações. As novas configurações familiares estão aí mesmo e, presume-se, vieram para ficar. A cultura do corpo é incentivada, não só como saúde, mas principalmente como uma negação da passagem do tempo. Tudo hoje é instantâneo e descartável. A competitividade predomina na cultura atual, e fica claro que não se trata apenas de um jogo pulsional de domínio; além disso, parece ser um jogo de abastecer e manter o narcisismo de cada um. A ideia de alcançar plenitude e da intolerância à frustração trafega comumente no comportamento corrente. A maldade humana parece corriqueira, mascarada, inúmeras vezes, por revestimentos grandiosos e brilhantes, ou por um falso self que aparenta humildade. A excessiva competição muitas vezes encobre e aceita a maldade como algo até mesmo trivial.

Desta forma, é bastante habitual, nas contingências da vida, que nos defrontemos com situações que envolvam litígios nas relações humanas. Pertence ao cotidiano essa condição. As disputas, veladas ou não, permeadas por sentimentos dos mais variados em múltiplas graduações, como raiva, inveja, ciúme, competição, controle e domínio, estão presentes nos momentos mais rotineiros e recorrentes do convívio, em todas as categorias humanas, desde familiares, conjugais e institucionais.

Assim sendo, o estudo destes conflitos, abundantes nos vários campos intersubjetivos do viver, inclusive no setting (matriz transferencial-contratransferencial), partindo-se das necessidades de completude narcísica de um determinado paciente, configura-se adequado para nós, reforçando mais ainda todo um alicerce psicanalítico que já está consolidado. E, aparecendo no campo psicanalítico, entre paciente e terapeuta, aí mesmo é que a questão pode ser enfocada e, quem sabe, elaborada.

Diante dessas considerações, apresento a ideia de um projeto de grupo de estudos sobre o narcisismo, que contempla autores que já são estudados, alguns mais, outros nem tanto, nas nossas instituições, no entanto, sobre o tema narcisismo, de forma dispersa. Ou seja, a proposta aqui é convergir no estudo detalhado das questões narcísicas que aparecem entremeadas com o universo pulsional, em qualquer estrutura nosológica.

A particularidade deste empreendimento tornou-se consideravelmente viável, uma vez que, nos dois últimos anos (2013 e 2014) dos seminários de formação psicanalítica, na SPPA, houve muita dedicação ao tema, já que desenvolvi trabalhos anuais nessa área, sobre Grunberger e Green. Tenho me dedicado bastante a esta temática, inclusive com artigos que foram apresentados nos congressos da Fepal (2014 e 2016) e da Febrapsi (2015).

Literatura sugerida e particularizada de cada autor
GREEN, A. (1982). Prefácio – O Narcisismo e a Psicanálise: Ontem e Hoje. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988.
____. (1980). A Mãe Morta. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988.
____. (1979). A Angústia e o Narcisismo. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988. p. 143-185.
____. Pulsão de Morte, Narcisismo negativo, Função Desobjetalizante. In: O Trabalho do Negativo. Porto Alegre: ARTMED, 2010.
GRUNBERGER, B. (1971). Introduccion. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1960). Estudio Sobre la Relacion Anal-Objetal. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1964). De La Imagen Falica. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1967). El Edipo y El Narcisismo. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Edirorial Trieb, 1979.
____. (1965). Estudios sobre la Depression. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb, 1979.
KOHUT, H. (1966). Formas e Transformações do Narcisismo. In: Self e narcisismo. São Paulo: Imago, 1984.
____. (1972). Reflexões acerca do Narcisismo e da Fúria Narcísica. In: Self e narcisismo. São Paulo: Imago, 1984.
STOLOROW, R. D. & LACHMANN, F. M. Definição Funcional do Narcisismo. In: Psicanálise das paradas do desenvolvimento – teoria e tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
____. Idealização e Grandiosidade. In: Psicanálise das paradas do desenvolvimento – teoria e tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.


Configurações da vida e morte na contemporaneidade 

Artigo escrito por Roaldo Naumann Machado – Psicanalista e Professor no Curso de Formação da Horizontes
Agosto de 2016

vida e morte artigoCertamente as configurações da vida e da morte são distintas se as relacionarmos com outros momentos históricos e culturais do nosso desenvolvimento como espécie humana. Não me atenho a este aspecto principalmente por insuficiência de conhecimentos. Procurarei pensar como os conceitos sobre a vida e a morte podem ser apreendidos na contemporaneidade da nossa ciência psicanalítica não sem novamente atestar a relatividade de tais conhecimentos.

Em 1991, tendo executado o trabalho para membro efetivo de minha sociedade, Algumas contribuições da metapsicologia freudiana à compreensão do fenômeno psicossomático, afirmei que algo mais ousado também, de acordo com Freud (1920g, 1933a, 1940a), poderia ser pensado no sentido que todos nós morreremos, se nossas vidas fossem levadas a um fim natural, por razões internas psicossomáticas (tóxicas). Estamos, portanto, dentro do tema das configurações da vida e da morte. Perguntamo-nos, pois não dispomos de qualquer resposta completa e abrangente, qual é a razão ou razões que levam o indivíduo a abreviar a vida do seu fim natural. Este tema não pertence à contemporaneidade. Talvez neste momento tenhamos apenas algo a mais do discernimento de tais fatos.

Os neurônios tendem a se desfazer da quantidade (Freud 1950a); o Id dá mais valor à possibilidade de descarregar quantidades (Freud 1940a). Citações distantes por aproximadamente quarenta e três anos que, de uma forma breve, conceituam o Princípio de Inércia ou Nirvana, principio este constitutivo do que foi proposto como pulsão de morte (1920g). Agreguemos a esta reflexão outra citação de Freud nos primórdios da construção da psicanálise. Na carta de número 52 dirigida à Fliess em 1986 (1950a) Freud escreve: cada re-escritura posterior (das representações mnêmicas em seu conjunto) inibe a anterior e desvia dela o processo excitatório. Toda vez que a re-escritura posterior falta, a excitação tramita segundo leis psicológicas que valiam para o período psíquico anterior e pelos caminhos então disponíveis. Se ampliarmos nosso foco de visão sobre esta soberba citação, perceberemos que estes movimentos de progressão e regressão nada mais são do que as configurações da vida e da morte em um período dado da estruturação do Eu em sua relação com o seu contexto. Tais organizações mnêmicas expressam o eterno diálogo de Eros e da pulsão de morte na nossa constituição neurológica e psíquica

Desde muito cedo Freud em sua obra nos chama a atenção que, sob a influência das pulsões de autoconservação, o Princípio do Prazer-Desprazer é re-escrito sob o primado do Princípio da Realidade. Cito um trecho do trabalho Formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico (1911b): este último (princípio da realidade) exige e efetua o adiamento da satisfação, pois, sob a égide do princípio do prazer há risco para a sobrevivência individual e da espécie. Concluo esta citação anexando outra: assim o organismo é ameaçado pela pulsão de morte e a descarga implicaria em um retrocesso ao zero absoluto e não ao zero relativo (próprios do princípio de inércia e de constância) (Além do Princípio do Prazer, 1920g). Abre-se, portanto, para o nosso tema, uma janela investigatória sobre as configurações da vida e da morte. O nosso vínculo com o contexto e deste conosco, regido sob princípio da realidade é indiscutivelmente uma proteção à vida e a nossa morte natural.

Examinemos uma estrutura primitivíssima descrita por Freud como o Eu da Realidade Original (1915c), resumidos por D. Maldavsky (1980) em quatro momentos progressivos: 1) o arco reflexo; 2) preferência pelo mecanismo de fuga dos estímulos como forma de eliminar o estímulo; 3) registro de certas sensações como endógenas; 4) ligadura entre si destas sensações endógenas de tensão e alívio, de desprazer e prazer, correspondente a diferentes órgãos em homeostase somática e investidos libidinalmente. Este último momento constitui a primitiva estrutura, o Eu da realidade original.

Deparamo-nos, portanto, seguindo a linguagem de Freud (1924c), como Eros vai progressivamente ligando a pulsão de morte, através do investimento libidinal e da projeção aqui ainda inteiramente entre órgãos e sistemas de órgãos, organizando a desconstituição provocada pela tendência dissipativa da entropia própria da pulsão de morte, em estruturas progressivamente mais complexas. A rigor é assim que procede o movimento de Eros em sua fusão com a pulsão de morte no decorrer do nosso ciclo vital, constituindo e desconstituindo.

Configuremos, entretanto, já que estamos diante desta estrutura, o Eu de Realidade Original, algumas questões da vida e morte. Nossa colega psicanalista Ângela Wirth, numa comunicação pessoal, informou-me que bebes prematuros, quando submetidos a estímulos dolorosos discretos, paravam de respirar e necessitavam de respiração assistida. Por exemplo, uma iluminação, diríamos normal, fazia com que bebes não prematuros chorassem e fechassem os olhos, enquanto que os prematuros desconstituíam o aparelho respiratório a pouco conquistado. Isto me relembra de imediato a afirmação de Freud no Projeto de Psicologia (1950a), de que a dor deixa como sequela em ψ facilitações permanentes, como se transpassadas por um raio; facilitações que possivelmente cancelem por completo as resistências das barreiras de contato estabelecendo um caminho de condução como o existente em Ф. Suponho que estes discretos estímulos referidos constituem-se em dor e desconstituem o sistema de registros estabelecendo a desordem entrópica da pulsão de morte.

Trago este exemplo, pois pretendo transpô-lo, não sem certa apreensão, a outras situações bem mais “contemporâneas”, será mesmo que é bem assim, da nossa vida cotidiana. Todos nós sabemos que nossa vida encontra-se sob o risco de ser abreviada com o uso abusivo dos mais diferentes tóxicos.  Freud (1915c, 1924c, 1926d) nos afirma, de várias maneiras, que as pulsões exigem a presença dos objetos. Em 1924 (Problema econômico do masoquismo) nos afirma que os próprios órgãos do nosso corpo são tomados como os primeiros objetos para constituir o masoquismo erógeno original ou sado masoquismo primordial. Em 1926 (Inibição, sintoma e angústia) admite que os investimentos dos nossos órgãos sejam os prelúdios dos investimentos objetais. Tais citações são lembradas porque descrevem os momentos progressivos da constituição do Eu real originário juntamente com o Eu prazer purificado (1915c). Este último é constituído através por uma projeção também primordial na forma de agressividade libidinal (Freud 1924c) que o objeto terá como função metabolizar e devolver ao Eu como investimento útil no sentido de fortalecimento identificatório.

Um pequeno fragmento clínico pode ser utilizado como ilustração. Um paciente jovem, portador de severa artrite reumatóide e cocainômano silencioso. Drogava-se no sótão de sua casa, não causando distúrbios ao resto de sua família. Num determinado dia tal paciente causou grande ruído à família que o levou à internação psiquiátrica. Não podia mais subir ao sótão no qual residia, pois o mesmo estava invadido por bandidos que iriam assassiná-lo. Não esqueçamos que Freud nos fala do silêncio da pulsão de morte. As alucinações causadoras de ruídos quase que intoleráveis aos familiares e ao paciente, do meu ponto de vista, são expressões de Eros diante da eminente morte por overdose. Dos inimigos alucinados podia fugir o que não ocorria diante da silenciosa pulsão de morte.

Prossigamos, entretanto nosso assunto. No exame das três propostas de duplicação sugeridas por Freud no texto O sinistro (1919h), Júlio Aray (1968) no seu excelente estudo sobre o Aborto, nos propõe que a placenta, na sua função de duplicação do feto, possui uma capacidade importantíssima e vital de desintoxicação. A mãe e seu seio recebem está função desintoxicante como procuração advinda desde o ventre. Aqui devemos levar em conta a notável afirmação de Freud (1926d): vida intra-uterina e primeira infância constituem um conjunto em medida muito maior do que nos faria pensar a chamativa cesura do ato de nascimento. O objeto-mãe psíquico substitui para a criança a situação fetal biológica.

Abrimos, portanto, nossa reflexão para uma duplicação mais primordial denominada por alguns pesquisadores como número.  Esta é uma sugestão de Jacques Lacan encontrada no seminário XI. O autor propõe que o fenômeno psicossomático ocorre por indução significante do sujeito no outro por um curto circuito. Tal sugestão tem relação com o fenômeno da holofrase no qual S1 e S2 encontram-se solidificados. Lacan afirma que o corpo deixa-se inscrever por algo que é da ordem do número, que não implica na subjetivação do desejo, sim num conceito absoluto de gozo. Neste sentido o valor do número diz respeito ao registro de uma freqüência pura. Todas estas idéias partem do achado de Pavlov no qual o mesmo efeito reflexo é obtido por estímulos de várias naturezas, desde que a freqüência seja a mesma, portanto, é a esta última que devemos o efeito. Este é, portanto, o gozo numérico da freqüência pura (D. Maldavsky 1988).

Seguindo estas hipóteses e o afirmado por Freud de que o fator fixador ao recalcamento é a compulsão à repetição do id inconsciente, que no caso normal somente é cancelada pela função livremente móvel do eu (1926d), lembremo-nos da afirmação de Freud (1924c) sobre a necessidade de projeção, via muscular, do masoquismo erógeno originário em direção ao objeto. Diante da impossibilidade desta projeção fundante do espaço, tempo e consequentemente do psiquismo, diga-se de passagem, devido ao Eu ou ao objeto contextual no sentido de recebê-las e metabolizá-las, estaríamos propensos a fixações masoquistas da ordem descrita como gozo numérico da freqüência pura.

Pribram e Gill (1977) no seu clássico estudo sobre o Projeto de Psicologia de Freud, refletindo sobre esta incapacidade projetiva primordial, referem-se às contribuições clássicas de Tannon (1927; 1929): os processos neuroquímicos e neuroendócrinos foram concebidos como consistentes, sobretudo de mecanismos homeostáticos de retroalimentação negativa e não positiva… Só quando tais mecanismos escapam do controle, quando a sincronização da retroalimentação fica desalinhada, ocorrem oscilações e interrupções como resultadas da retroalimentação positiva. Traduzindo algo em linguagem psicanalítica, estas circunstâncias de desalinhamento ocorrem por um desencontro entre o recém-nascido e sua mãe desintoxicante. A criança fica propensa a existir de acordo com a holofrase lacaniana, isto é, de acordo com o gozo da freqüência pura numérica investida pela retroalimentação positiva. Compreendemos em parte também os tão conhecidos fenômenos da overdose independentemente da especificidade da adição, pois esta última depende prevalentemente da freqüência numérica como tal.

Outro exemplo clássico nos permite compreender melhor o proposto.  Guyton (1977) nos descreve a experiência clássica em macacos nos quais os centros cerebrais de recompensa e prazer são estimulados por eletródios. O animal esquecendo-se de se alimentar estimula o eletródio até sete mil vezes por hora correndo sério risco de vida. Trata-se certamente do privilegio indiscutível do gozo numérico estimulado por uma retroalimentação positiva que impede a projeção e o encontro com o objeto por incapacidade de um ou de ambos os componentes da dupla vincular. Nestas circunstâncias descritas o objeto contextual não é encontrado, não exerce uma das suas funções primordiais, a desintoxicante, consequentemente o espaço, tempo e subjetivação do desejo estarão irremediavelmente comprometidas.

O Dr. Sérgio de Paula Ramos, também nosso colega psicanalista, comunicou-me há alguns anos atrás que a causa mais frequente de morte devida ao uso progressivo de substâncias tóxicas, era o infarto do miocárdio. Nestas circunstâncias penso ser adequada a hipótese de que essa estrutura descrita por Freud como o Eu da realidade original fragmenta-se, e os órgãos, constituídos em estruturas para a manutenção do equilíbrio homeostático vital, fracionam-se.

Convém lembrarmos que neste registro numérico protomental, para usarmos uma expressão de Bion (1948-51), a importância se concentra na freqüência pura e é independente da qualidade do estímulo. A comunicação é induzida e está aquém das zonas erógenas (Machado 1991). Não é sem razão que nos ocorre a afirmação de Freud em Dostoievski e o parricídio (1928b) de que o núcleo central das adições é um gozo masturbatório incessante.

É nestes termos que também compreendemos o estado de gozo ininterrupto que Schreber (1903) alcança com Deus através da fusão com os vestíbulos do céu. Não esqueçamos que essas situações peculiares ocorreriam com cadáveres, isto é após a morte. Com os homens vivos como o próprio Schreber, isto resultaria no assassinato da alma. Repare-se na peculiaridade da citação referida por Schreber através dos versos de Richard Wagner em seu Tannhäuser: Ah, mas continuo mortal e para mim é imenso teu amor; um deus pode gozar sempre, mas eu estou sujeito a transformações. O momento do gozo masturbatório e sua incessante busca confundem-se com aparada do tempo, a abolição do espaço e da subjetividade. Trata-se do assassinato da alma e do retorno ao sagrado. (Schreber 1903; Machado 2013a). Assim podemos entender a busca incessante desta volúpia como a derradeira defesa contra o assassinato da alma, isto é, o assassinato do sujeito Schreber.

Estranho destino o do corpo, e pleno de consequências: com efeito, o corpo, ao mesmo tempo em que é o substrato necessário para a vida psíquica, o abastecedor dos modelos somáticos aos quais recorre à representação, obedece a leis heterogêneas às da psique (Castoriades-Aulagnier, 1975). Prossigo com o já referido em outro texto (Machado 2013a): Este outro, o corpo, é desde o início, local privilegiado de todo desejo, inclusive de destruição. Se não libidinizado adequadamente, resulta que a psique o destrói. Podemos evidenciar tais aspectos nas frequentes automutilações em pacientes psicóticos. Nos delírios hipocondríacos de Schreber penso que contemplamos os testemunhos pictográficos implícitos no âmago da representação do primário, para utilizar a expressão de Castoriades-Aulagnier, dessas situações. Se a psique autoengendra o prazer recebido por suas percepções sensoriais, o desprazer provoca a mutilação da zona e do órgão do qual se originam tais representações (Castoriades-Aulagnier 1975).  

Nosso estudo encaminha-se assim para o estudo das neuroses atuais (aktualneurosen), este núcleo central de todas as psiconeuroses, relativizado também como hipocondria (Freud 1914c). Tal tema é abordado já nas primeiras obras de Freud (1894a, 1895b, 1895c, 1895f) e prossegue em obras posteriores como o caso Dora (1905e) e nas conferências introdutórias à psicanálise (1916x). Repare-se que tal núcleo é de origem sexual, mas não relacionado à idéia (representações) provenientes da vida sexual (1894a) e de que ocorre em muitas circunstâncias uma verdadeira alienação entre as esferas psíquicas e somáticas.

Tais idéias antecipam em muitos anos os conceitos de Sifneos (1972) e Nemiah (1976) de alexitemia, esta impossibilidade de expressar e verbalizar emoções, descrever sentimentos, desejos, bem como sensações corporais. Joyce McDougall refere este fenômeno como se o corpo funcionasse de uma forma autista em relação à psique (1978). O paciente apresenta defesas descritas como “pensamento operatório” ou “sobre adaptação” (Libermann D. 1081, 1982). Compreendemos assim um pouco melhor a afirmação de Freud sobre a alienação entre as esferas psíquicas e somáticas do Eu.

Ocorre-me aqui outro exemplo clínico. Esteve comigo em tratamento psicanalítico por mais de dez anos um homem de mais de quarenta anos, Foi trazido pela esposa, como se fosse uma criança. Descrevia-me a esposa, o que foi confirmado pelo paciente, um adoecimento precoce de seu sistema cardiorrespiratório sem que se pudesse fazer qualquer coisa para impedi-lo. O que mais chamava a atenção da esposa era a relativa indiferença com que o paciente tratava sua sintomatologia. Suas palavras denotavam a ausência de apreensão diante do seu adoecer. Este paciente, um executivo muito bem sucedido, era hábil no manejo de números e planejamento estratégicos de instituições financeiras. Durante estes dez anos que comigo esteve, teve três infartos do miocárdio, acidente vascular cerebral, inúmeras flebites, embolia pulmonar e outras manifestações físicas. Chamava-me a atenção o fato do mesmo parecer se resignar diante do seu adoecer, como se não o sentisse. Tive comprovação direta disto, pois dois dos seus infartos se processaram durante a sessão analítica. No exemplo mais notável, tendo chegado quarenta minutos atrasado, pois o trânsito estava congestionado, aliás, desculpa frequente do paciente, e sugerido que não tivéssemos a sessão, confessou-me um pequeno desconforto precordial, o que me fez encaminhá-lo de imediato a um centro cardiológico, não sem chamar sua esposa. Após os procedimentos cirúrgicos, relatou-me um único sonho durante estes dez anos: dirigia-me a um evento no qual receberia uma homenagem e, olhando meu braço, notava que o mesmo estava fraturado em dois lugares. O surpreendente é que não sentia dor alguma (Machado R. 2013b). Assim funcionava este paciente. Sobre adaptado, suas emoções estavam praticamente ausentes. Lembra-me a citação de D. Maldavsky (1986) sobre as neuroses atuais: nestas, o processo é diferente: os afetos não constituem âmagos, sim desenvolvimentos plenos, incoercíveis, em cujo caso ocorre um efeito consistente na impossibilidade do registro do matiz afetivo.

Este fenômeno que já descrevia Freud carrega marcas inequívocas em nossa contemporaneidade virtual. Uma possível relação pode ser estabelecida com as esquizofrenias nas quais a representação da palavra dissocia-se radicalmente da representação da coisa (Freud 1915e) e o paciente encontra-se numa existência virtual seca e alucinatória. A desconstrução do psiquismo nas formas do espaço, tempo, desejo e história, a desobjetalização para usarmos a expressão de Green (1983), marcam esta tendência que observamos comumente na pressa cotidiana e inserção abusiva nos jogos virtuais, acrescidas da incessante busca de sucesso, verdadeiras adições dos nossos tempos.

Para finalizar, apesar de todos os avanços da teoria psicanalítica, concordo com Green e faço minhas as palavras dele (1995): no que me diz respeito, não tenho medo de parecer antiquado ao dizer que não posso conceber o inconsciente diferentemente da visão de Freud, isto é, sem este fundamento na sexualidade e destrutividade.

 BIBLIOGRAFIA CONSUTADA

 Aray J. : Aborto, estúdio psicoanalitico. Buenos Aires, Hormé, 1068.
   Bion, W.R. (1948-51): Experiências em grupo. Buenos Aires, Paidós, 1974.
   Castoriades-Aulagnier, P. (1975): A violência da interpretação. Buenos Aires, Amorrortu, 1977.
  Freud, S. (1894a): Las neuropsicoses de defesa. Obras Completas vol.III, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
  Freud, S. (1895b): Sobre La justificacion de separar de La neurastenia um determinado síndrome em qualidad de “neurosis de angústia”. Obras Completas, vol. III, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
  Freud S. (1895c): Obsesiones y fobias. Obras Completas, vol.III, Buenos Aires, 1988.
   Freud, S. (1985f): A propósito de las críticas a La “neurosis de angústia”. Obras Completas, vol.III, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
 Freud, S. (1905e): Fragmento de análisis de um caso de histeria (caso Dora). Obras Completas, vol. VII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
  Freud S. (1911b): formulações sobre os dois princípios do acontecer psíquico. ESPN, vol. 1, Rio de Janeiro, Imago, 2004.
   Freud, S. (1914c): A guisa de introdução ao narcisismo. ESPN, vol.1, Rio de Janeiro, Imago, 2004.
    Freud (1915c): Pulsões e destinos da pulsão. ESPN, Vol. 1, Rio de Janeiro, Imago 2004.
    Freud, S. (1915e): O Inconsciente. ESPN, Vol. 2, Rio de Janeiro, Imago, 2006.
     Freud, S. (1911c): Sobre um caso de paranóia descrito autobiograficamente. Obras Completas, vol. XII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
     Freud, S. (1916x): Conferencias de introducion a psicoanálisis. Obras Completas, vol. XV, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
     Freud S. (1919h): Lo ominoso. Obras Completas, vol. XVII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
    Freud, S (1920g): Além do princípio do prazer. ESPN vol. 2, Rio de Janeiro, Imago, 2006. Novas conferências introdutórias à psicanálise. Obras Completas, vol. XXII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
    Freud S, (1924c): O problema econômico do masoquismo. ASPN, vol. 3, Rio de janeiro, Imago, 2006.
    Freud S.(1926d): Inibição, sintoma e angústia, Obras Completas, vol.XX, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
     Freud, S. (1928b): Dostoievski y El parricídio. Obras Completas,  vol. XXI, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
      Freud S. (1933a): Novas conferências introdutórias à psicanálise.  Obras Completas, vol. XXII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
       Freud S. (1940a): Esquema de psicanálise. Obras Completas. Vol.XXIII, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
       Freud S. (1950a): Projeto de Psicologia; Carta 52 à Fliess, Obras Completas, Vol. I, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
      Green, A. (1983): Narcisismo de vida e narcisismo de morte. São Paulo, Escuta, 1988.
       Green, A. (1995): sexualidade tem algo a ver com psicanálise? Livro anual de psicanálise, Tomo XI, p. 217-229. 1995.
     Guyton, A.C.: Anatomia e fisiologia do sistema nervoso. Rio de Janeiro, Interamericana, 1977.
     Libermann, D. et al. (1981): Los pacientes psicossomáticos vistos desde La clinica psicoanalitica. Revista Asociacion Escuela Argentina de Psicoterapia para Graduados, 7: 53-75, 1982.
   Libermann, D. et AL.  (1982): Del cuerpo al símbolo; sobreadaptacion y enfermedad psicossomática. Buenos Aires Kargieman. 1982.
  Machado, R (1991): Algumas contribuições da metapsicologia freudiana à compreensão do fenômeno psicossomático. Trabalho não publicado.
  Machado, R. (2013a): A autobiografia de Schreber: um estudo sobre a paranóia e a violência. In Variações sobre temas de psicanálise, Porto Alegre, Editora Movimento, 2013.
              Machado, R. (2013b): Inibição, sintoma e angústia: reflexões e enlaces com outras ciências. In Variações sobre temas de psicanálise, Porto Alegre, Editora Movimento, 2013.
              Maldavsky, D. (1980): El complejo de Édipo positivo. . Buenos Aires, Amorrortu, 1980.
               Maldavsky, D. (1986): Estruturas narcisistas, Buenos Aires, Amorrortu, 1988.
              McDougall, J. (1978): Em defesa de uma certa anormalidade. Porto Alegre, Artes Médicas, 1983.
               Nemiah, J. C. (1976): Alexithymia: theoretical consideratioms. Psychothetapy and Pychosomatics, 26: 199-206 177.
               Pribram, K. & Gill, M.: El proyecto de Freud. Buenos Aires, Marymar1977.
               Ramos, S.P.: Comunicação pessoal.
               Schreber, D. P. (1903): Memórias de um doente dos nervos. São Paulo, Paz e Terra, 1997.
              Sifneos, J. (1972): The prevalence of alexithymic characteristics on psychosomatic sympton formation. Psychotherapy and Psychosomatics, 22: 255-62, 1973.
               Wirth A.: Comunicação pessoal.


O tratamento da enurese na psicoterapia psicanalítica de crianças

Artigo escrito por Ana Menini – Psicóloga/Mestre e Professora no Curso de Formação da Horizontes
28.06.2016

enurese

É comum nos consultórios de Psicologia casos de enurese em crianças das mais diversas idades com as mais diversas causas. A presença deste sintoma pode significar muito ou nada, porém, ainda assim , deve ser investigada cuidadosamente por um especialista. Deve – se buscar causas orgânicas juntamente com um(a) Pediatra bem como as causas emocionais com um Psicólogo (a).
Um psicoterapeuta de crianças  irá investigar o que este sintoma está comunicando, ou seja, o que a criança está tentando dizer através do seu corpo.
Esta investigação não é simples e fácil. É fundamental o empenho dos pais neste momento e eles devem ser aliados do terapeuta para que a criança se sinta segura e acolhida para mostrar, através da comunicação simbólica, a origem do sintoma.
A medida que a criança vai se sentindo segura e compreendida, o sintoma vai desaparecendo.



NARCISISMO E PULSÃO (TRIEB): IDÉIAS

Artigo escrito por Roaldo Naumann Machado – Psicanalista e Professor no Curso de Formação da Horizontes

Este pequeno trabalho foi lido como colaboração à primeira jornada de metapsicologia da SPPA no ano de 2015 cujo assunto era precisamente Narcisismo e Pulsão de Morte.

Em se tratando de conceitos abstratos gera-se muita incerteza. Como evitá-las se desejamos prosseguir na nossa investigação? Segue-se um texto resumido e algo complexo. Já que o progresso não suporta que tais definições sejam rígidas (Freud 1915c p.145), tome-se o presente como apenas um pequeno ensaio.

Freud no opúsculo O Eu e o Id, mais especificamente no capítulo IV denominado Os dois tipos de pulsão, nos escreve: coloca-se agora para nós uma tarefa mais imediata: é preciso que procedamos a um importante aprimoramento da teoria do narcisismo (1923b p.55), (o negrito é meu). Coloca então que a libido já se encontra no Id e dali parte para o investimento de objetos e retorna ao Id compondo, através dos processos de identificações, a complexidade do Eu. Perguntamo-nos, quais são os importantes aprimoramentos que necessitam serem inscritos sobre a teoria do narcisismo? Freud nos dá algumas sugestões para pensarmos seu raciocínio.

Durante toda a obra de Freud, algo anterior e posterior ao Eu e o Id, este aprimoramento foi pensado e continuamos fazendo-o. Pretendo aqui trazer idéias que possam estar vinculadas a este propósito e, ao mesmo tempo, relacionar os avanços da teoria das pulsões e do narcisismo com outras ciências com o objetivo de torná-los mais claros e objetivos, do meu ponto de vista, tais conceitos. Esta idéia de relacionar a metapsicologia a outras ciências, particularmente à biologia, não é absolutamente alheia ao pensamento de Freud. No próprio texto de 1920, Além do Princípio de Prazer, além de muitos outros, Freud serve-se abundantemente da biologia para alicerçar suas hipóteses de pulsões de vida e morte.

Como ponto de partida, já que estamos tratando de formas pelas quais a vida se expressa, e o narcisismo tanto quanto as pulsões são expressões da mesma, é importante que saibamos que a vida em sua extrema complexidade está intimamente ligada com duas das mais famosas leis da ciência—as leis da termodinâmica (Margulis L. & Sagan D. 2002 p.29).

A primeira lei diz respeito à conservação da energia nos sistemas em geral. Já que nem todas as formas de energia são iguais e o calor é uma forma de energia que tende a desorganizar a matéria, a segunda lei diz que os sistemas físicos tendem a perder calor para seu meio ambiente… Em qualquer sistema dotado de movimento ou que utilize energia, há um aumento de entropia (organização-desorganização). Esta segunda lei, no que diz respeito à vida, isto é, a “entropia negativa”, deverá ser correlacionada entre qualquer sistema vivo e seu meio ambiente. No entanto, qualquer entropia “negativa” está invariavelmente equacionada a uma “entropia positiva”, isto é, a exportação de energias “menos úteis” e a importação de “energias mais úteis”, ou para ser mais preciso, os sistemas vivos com a importação de energia tendem a criar ordens progressivamente complexas e a provocar desordens contextuais (Margulis L. & Sagan D. 2002 p.29-31).

Relativizemos, portanto, estes conceitos de entropia negativa e positiva, energias mais ou menos úteis, com as hipóteses desenvolvidas por Freud em Além do Princípio do Prazer (1920g p.136-7). Freud utiliza a presença do prazer-desprazer e os associa a propostas psicofísicas de Fechner de estabilidade-instabilidade e, posteriormente, as insere dentro do conceito de narcisismo como uma constante e cíclica de transformação de libido do eu em libido de objeto e vice-versa: portanto, sem cessar se transmuda libido do eu em libido do objeto e libido do objeto em libido do eu (Freud 1933a, conferência 32, p.95). Esta cíclica e permanente transformação libidinal é a base da complexidade do Eu e, paradoxalmente, porque não dizer, dialeticamente, o expõe à pulsão de morte pois a defusão pulsional o coloca diante de investimentos desvantajosos de libido narcisista. Isto pensado assim é algo bastante confuso. Tentemos compreende-lo.

Ora, a estabilidade dentro do sistema (Eu), ocorrida após a instabilidade, deriva do aproveitamento de uma energia libidinal de forma mais útil. E isto se realiza com a criação de maiores complexidades através dos processos da identificação e sublimação. Recordemos aqui a afirmação de Freud (1923b p.54-5): lembremo-nos de que o Eu, lidando com os primeiros investimentos objetais do Id…, absorve a libido desses investimentos e a enlaça a modificações que, por meio da identificação, ele mesmo [o Eu] pode promover em si (lembremos que o Eu se inclui dentro dos sistemas autopoéticos, conceito dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, (Margulis L. & Sagan D, 2002 p.31)). Essa conversão de libido erótica em libido do Eu implica, naturalmente, o abandono das metas sexuais e, assim, uma dessexualização. Podemos reconhecer aqui uma importante realização do Eu na sua relação com Eros. Na medida em que se apodera da libido dos investimentos objetais, impondo-se como único objeto de amor e dessexualizando ou sublimando a libido, ele [o Eu] trabalha contra os propósitos de Eros e se coloca a serviço de moções pulsionais que se opõe a Eros. Percebemos aqui a forma pela qual Freud percebe o paradoxo do processo do desenvolvimento das complexidades do Eu. As medidas da dessexualização, sublimação e mesmo identificação não conseguem anular por completo a ação antagônica da pulsão de morte, pelo contrário, paradoxalmente deixam-no mais à mercê da mesma, pois mesmo as pulsões de vida são conservadoras (Freud 1920g p.163). O objetivo de toda vida é a morte, e remontando ao passado, o inanimado já existia antes do vivo (Freud 1920g p.161). Completamente de acordo com isso está a ulterior afirmativa de Freud (1920g p. 171) de que as células germinativas adotariam uma conduta absolutamente “narcísica”. Compreendemos então que, na medida em que a libido cria maior complexidade decompondo esse máximo de narcisismo absoluto pouco complexo, o Eu é colocado mais a serviço e a mercê das pulsões de morte. Do meu ponto de vista, o Eu complexo põe-se no lugar do pólo masoquista que cede energia libidinal útil ao pólo sádico representado pelo Super-Eu e o mundo externo decompondo os gradientes vitais reduzindo-o ao estado de “nirvana”.

No início de nossa vida ontogenética, no que futuramente Freud denominará de Eros, as pulsões sexuais e de autoconservação, também denominadas por Freud de pulsões do Eu, coincidem na busca desta “energia” estruturante da vida e do eu. O contexto representado pelos objetos, já inscrito neste saber prévio que também Freud descreve como o instinto (Instinkt) (1918b p. 108-9), resume-se desta maneira: no peito da mulher o amor e a fome se encontram (1900a p. 226). E, sabemos quão importante e estruturante é este encontro onde o contexto, o peito, recebe o investimento libidinal estruturante-desestruturante e deve devolvê-lo com a prevalência evidente da “energia útil”. O problema reside no afirmado acima por Freud. Todas as pulsões são conservadoras. Deriva-se também daí que o organismo não queira morrer por outras causas que suas próprias leis internas (apoptose inscrita na filogênese). Ele quer morrer à sua maneira, e, assim também essas pulsões que preservam a vida na verdade foram originalmente serviçais da morte (Freud 1920g p.162). O que se passa neste encontro de “estruturante-desestruturante na relação tão vaga, se assim descrita, a relação entre o Eu e o Objeto? Penso ser em grande parte, a “especificidade” deste encontro. Este tema demandaria outro estudo com uma atenção toda particular e especial ao sistema perceptual-consciente, ao o que está inscrito no Id como “saber prévio”, e suas relações com o contexto, pois tal especificidade é sumamente complexa. Note-se que Freud já propunha (1915c p.151) que as pulsões sexuais (libido) são elásticas, pouco educáveis, enganam-se com freqüência, trocam seus objetos com facilidade. Mesmo assim é devido às mesmas a criação de qualidades e complexidades, sem é claro, perderem a divida “especificidade”. Se este encontro com a especificidade não ocorrer, pelo menos ilusoriamente, fica o Eu muito mais exposto ao “trauma” e, consequentemente à pulsão de morte.

Não podemos deixar de lembrar as considerações de Freud (1925h p.149-50) de que a reprodução do percebido na forma de uma representação mental nem sempre é sua fiel repetição; ela pode ser modificada pela omissão de diferentes elementos ou pela sua condensação, diríamos que também pela sua complementação, pois muitas vezes podemos observar que o esquema (adquirido pela filogênese) triunfa sobre o vivenciar individual (Freud 1918b p.109). Assim o encontrar um objeto é de fato reencontrá-lo (Freud 1905e, citado por Strachey J. in Freud 1925 h p. 154).

Posso, entretanto, perfeitamente supor que esta capacidade de criar complexidades revela-se também através do conceito de “masoquismo erógeno”, este sadomasoquismo primordial e é propiciada e mantida pelo encontro primordial entre Eros e pulsão de morte, abaixo descrito: diríamos, então, que após a parcela principal do sadismo original ter sido transposta para fora em direção aos objetos, um resíduo interno teria permanecido, e seria este o masoquismo propriamente dito, isto é, o masoquismo erógeno. Este, por um lado, teria então, tornado-se um componente da libido e, por outro, tomaria como objeto o próprio organismo. Assim, esse masoquismo seria um testemunho e um resquício da antiga fase de formação tão essencial para a vida (o negrito é meu), em que houve amálgama entre a pulsão de morte e Eros… O masoquismo erógeno teria participado de todas as fases evolutivas da libido, extraindo delas suas variadas e cambiantes roupagens psíquicas (Freud 1924c p. 110). Note-se que Freud, além de nos fornecer uma teoria sobre o desenvolvimento ontogenético das complexidades do Eu, nos sugere uma teoria sobre os primórdios da vida.

É, portanto, o “peito da mulher” o âmago que impede a desestruturação do Eu emergente e o impele para a vida. Não seria, portanto, o masoquismo erógeno primordial um dos enlaces mais primordiais do que denominamos narcisismo? O “peito da mulher” não receberia e metabolizaria a agressão primordial e a devolveria propiciando enlaces narcisistas complexos? Seria este um importante aprimoramento à teoria do narcisismo? Também o narcisismo acompanha todas as fases evolutivas da libido, extraindo delas suas variadas e cambiantes roupagens psíquicas tal qual o masoquismo erógeno?

Repare-se que a afirmação acima de Freud citada no Eu e o Id de que a libido parte do Id e retorna ao mesmo através dos objetos, é praticamente semelhante à referida no Problema Econômico do Masoquismo, onde o sadismo ou pulsão de destruição projetada retorna ao Eu por introjeção, compondo o masoquismo secundário que se assenta sobre o primário, estruturando o Eu e, se quisermos ser um pouco mais prolixos e indefinidos, compondo a “entropia negativa” (Schrödinger p. 83-5), o âmago da função de Eros como pulsão vital, guardiã da vida (Freud 1920g p.164).

Não é possível, portanto, pensarmos estes complexos fenômenos organizacionais vitais, descritos como narcisismo e pulsão, sem os inserirmos com certo rigor nas referidas leis da física e da biologia. Penso que isto não pode ser pensado como um reducionismo e sim, como uma inserção. É claro que tudo isto nos parece um tanto distante da nossa sofisticada psicanálise, mas o que posso fazer.

Dentro do proposto não parece haver duvidas sobre a existência desta permanente fusão narcísica pulsional Eros e Pulsão de Morte e suas infinitas variantes cíclicas. Já que hoje pensamos numa morte programada (apoptose), não seria lícito supormos que uma forma adquirida com o desenvolvimento filogenético poderia ser o que denominaríamos de instinto (Instinkt) de morte ao lado e complementando-se com o instinto (Instinkt) de vida? Se este, como pertinentemente assinala Freud (1918b p.108), compreende esquemas (Schema) congênitos por via filogenética que, como “categorias” filosóficas, realocam as impressões vitais, adquiridos como precipitados da historia da cultura humana, organizando as representações humanas em categorias de espaço e tempo, porque não pensarmos instinto de morte (Instinkt) como seu negativo?

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Freud S. (1900a): A Interpretação dos Sonhos, Porto Alegre, L&PM Editores, 2012.
Freud S. (1915c): Pulsões e destinos da Pulsão. Rio de Janeiro, Imago, 2004, vol. 1, ESPN
Freud S. (1918b): Da história de uma neurose infantil (O homem dos Lobos) in: Sigmund Freud, Obras Completas, Buenos Aires, vol. XVII, Amorrortu, 1989.
Freud S. (1920g): Além do Princípio do Prazer, Rio de Janeiro, Imago, 2006, vol.2 ESPN.
Freud S. (1923b): O Eu e o Id, Rio de Janeiro, Imago, 2007, vol. 3, ESPN.
Freud S. (1925h): A negativa, Rio de Janeiro, vol. 3, ESPN.
Freud S. (1934c): O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro, Imago, 2007, vol.3 ESPN.
Freud S. (1933a): Novas conferências introdutórias: Angústia e Vida Pulsional in Sigmund Freud, Obras Completas, Buenos Aires, vol. XXII, Amorrortu, Buenos Aires.
Margulis L & Sagan D.: O que é vida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002.
Schrödinger E.: O que é vida. São Paulo, Fundação Editora da UNESP, 1997.