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As vicissitudes da psicoterapia com crianças e adolescentes: a participação dos pais no processo terapêutico

Artigo escrito por Priscila Cunha – Formanda em Psicologia da Fadergs

A clínica com crianças e adolescentes possui características peculiares, desde o encaminhamento inicial, que geralmente é realizado pela escola, por pediatras ou pessoas bem-informadas, incluindo os próprios pais (ZIMERMAN, 2014), ou seja, as crianças não solicitam o tratamento ao qual são submetidas compulsoriamente pela vontade dos pais. Desse modo, é evidente que teremos que lidar não somente com o manejo dos pacientes, mas também com a inserção dos pais no processo terapêutico.

Stürner e cols (2009) preconizam que a participação dos pais ou responsáveis é fundamental para a consolidação, manutenção e término do processo psicoterápico, e que quando a família decide iniciar o processo terapêutico, já venceram muitas outras etapas, em especial, o fato de admitir que é necessária a ajuda de um profissional.

As autoras destacam ainda, que a participação dos pais no tratamento de menores de idade, está previsto no Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005), que prevê a obrigatoriedade de autorização de um dos pais ou responsáveis, para a realização de atendimento de criança, adolescente ou interdito. É tarefa dos pais conduzir crianças e adolescentes até o consultório e pagar os honorários do profissional, estando diretamente envolvidos com o tratamento através das necessidades reais impostas.

Jules Glenn, organizador do livro Psicanálise e Psicoterapia de Crianças, dedica um capítulo inteiro ao papel dos pais na análise de crianças, abordando não somente os sentimentos despertados nos pais, mas as dúvidas técnicas que emergem no terapeuta diante dos pais dos seus pacientes e sobre seus conceitos que me debruçarei.

Glenn e colaboradores (1996) ressaltam que o sofrimento com a patologia da criança recai sobre os pais e não sobre a criança, sendo a criança “uma extensão do genitor, que merece alívio” (p. 239). O narcisismo dos pais é colocado em xeque ao ver sua criança os envergonhando em público, atitudes que pressionam os pais a levar seus filhos para o consultório.

Os pais criam diversas expectativas sobre o tratamento e especialmente sobre o terapeuta, preocupando-se em como serão vistos por ele. Podem sentir uma confiança excessiva no terapeuta, que solucionará todos os seus problemas ou, se preocuparem que ele os culpe da patologia. Habitualmente os pais se culpam entre si pelos sintomas da sua criança, principalmente pela frustração da expectativa em “criar uma criança perfeita, uma criança melhor do que eles” (p. 239).

Para Zimerman (2009), a participação dos pais no tratamento é essencial e atualmente é parte do setting, não podendo mais ser considerada um entrave no tratamento, como foi visto até certa época, havendo inclusive indicação para que o analista evitasse contato com os pais.

Refletindo sobre os motivos que levariam o terapeuta a evitar o contato com pais, é possível pensar no que Glenn e cols (1996) nomeiam como as “potenciais reações emocionais aos pais do paciente” que estão no analista, e que podem ser chamadas também de transferências. Há uma identificação do analista com os pais e uma reação às características reais dos pais. O analista que apto a perceber essas reações emocionais, as utiliza de modo a adaptar os afetos transferenciais sinalizadores e outras reações, e a qualquer sinal dessas reações, consegue trabalhar para minimizá-las e neutralizá-las, antes que tomem proporções de difícil manejo.

Os autores ressaltam que o analista olha para o mundo do ponto de vista da criança, e a partir dessa visão que compreende o funcionamento do paciente na relação com os pais e outras pessoas. O movimento que ocorre então é de identificação com o paciente, despertando de forma empática, as lembranças das suas próprias relações de infância com pais.

Quando a intensidade dessas lembranças é tênue, pode ajudar o analista a entender como o seu paciente está angustiado. No entanto, tais emoções podem se intensificar, alterando o julgamento do analista e sua precisão no tratamento. Podem ocorrer entendimentos equivocados, de culpabilização dos pais do paciente, ou desconsiderando o papel efetivo dos pais na patogênese da enfermidade da criança.

Outras tantas reações são descritas por Glenn e cols (1996), principalmente do que diz respeito a um terapeuta que se solidariza com o sofrimento do paciente por ser semelhante ao seu, também na busca pelo amor dos pais, na raiva pelas falhas ocorridas em sua infância, ou até tomando o lugar dos pais numa tentativa de assumir suas tarefas que julga que seriam melhores executadas.

De outro modo, os autores destacam que pode ocorrer uma reação positiva aos pais da criança, despertando um desejo que seus próprios pais tivessem dispostos a buscar ajuda para seus problemas que foram ignorados, portanto a “afeição sentida pelos próprios pais também pode ser transferida para os pais do paciente” (p. 243). Continuando sob o viés dos referidos autores, podemos identificar duas reações esperadas pelos pais dos pacientes menores de idade: primeiro, pais que sentem compaixão pelo problema dos filhos e ficam agradecidos pelos cuidados dispensados pelo terapeuta. Esses pais não medem esforços para auxiliar o tratamento e demonstram sentimentos amistosos de cooperação com o analista; Na segunda hipótese, que ocorre com certa frequência, encontramos pais cheios de culpa e temor, carregando a ideia que prejudicaram seus filhos, ou bravos com a criança que lhe causou embaraços, ansiedade e culpa. Desses pais descritos por último podemos esperar um possível confronto, através da desaprovação do tratamento e do analista, processos que geralmente emergem de forma inconsciente.

Quanto ao analista, Glenn e cols (1996), nos alertam que nem sempre ocorrem reações transferências, mas que podem ocorrer reações empáticas e assim, a relação ocorre de forma simpática, através da defesa sobre as expressões hostis advindas dos pais, tentando tranquilizá-los e justificando excessivamente o tratamento. O recomendado neste momento é enfatizar que a abordagem mais útil é aquela que é calma e que comunica a atitude do analista.

Em alguns casos pode haver a sabotagem do tratamento por parte dos pais, através do não comparecimento às sessões, gerando resistência na criança ou ainda, trazendo informações falsas para o terapeuta. Essas interferências provocam irritação no analista, porém, sua capacidade de autoanálise, sua habilidade em compreender a si mesmo e o paciente, e seu interesse terapêutico adequado, garantem a sua postura.

“Quando a interferência deriva da atividade parental, contudo, o analista pode encontrar maior dificuldade em manter a sua perspectiva. A hostilidade transferencial e a preocupação pelo bem-estar de seu paciente podem complementar a sua irritação com as limitações colocadas à sua eficácia pelos empecilhos levantados pelos pais. Quando o terapeuta estiver ciente da natureza e das fontes de sua irritação, poderá lidar com ela de maneira mais objetiva.” (Glenn e cols. – 1996 – p. 243)

Portanto, se o analista identificar os pais dos pacientes como negligentes ou abusivos, poderá reagir com um desejo de substituição dos pais “maus”. A autoanálise é apontada como ferramenta fundamental para conter esses sentimentos, evitando que pontos cegos ocorram e desenvolvendo o sentimento de empatia com os pais.

Considerando que os pais participarão de uma forma ou outra do tratamento das crianças e adolescentes, após as fundamentações teóricas descritas até o momento, podemos nos ocupar dos procedimentos que deverão ser tomados ao atender crianças e adolescentes.

Seguindo as recomendações de Glenn e seus colaboradores, o tratamento inicia com os pais, pois é através deles que se determinará a analisabilidade da criança, o seu diagnóstico, seus sintomas, nível de desenvolvimento, como progrediu e regrediu no passado e como é o funcionamento da sua família e das suas relações sociais.

Os autores nos alertam sobre a possibilidade de um dos pais ser o facilitador do tratamento, mesmo que o outro traga dificuldades. A história da criança, dificilmente poderá ser contada por ela mesma, simplesmente por não se interessar pelo seu passado e por não possuir capacidade de falar do seu passado com a devida fidedignidade. (p. 244).

Os autores apontam outra tarefa importante que pais e terapeutas podem realizar em conjunto, que a preparação da criança para a visita inicial. Orientados pelo terapeuta, os pais encorajam a criança a falar abertamente com o terapeuta que será apresentado como alguém com habilidade para o ajudar. Cabe ao analista avaliar como os pais se comportam com seus filhos e vice-versa, observar também quais dificuldades podem surgir no decorrer do tratamento, além de averiguar a natureza e a força do ego, do superego e das pulsões de cada genitor, além da qualidade da sua interação com os filhos. (p. 245).

Glenn e cols (1996) nos advertem quanto o lugar que os pais ocupam na terapia das crianças, considerando que o tratamento é centrado na criança, e que o papel dos pais, apesar de importante, é secundário. Portanto, não será informado aos pais o que a criança comunica ao terapeuta. Cabe aos pais trazer informações sobre o estado mental e emocional da criança, apresentando os fatos que ocorrem no dia-a-dia do paciente. Há de se tomar cuidados, pois os pais podem ver o terapeuta como um observador da sua família, que faz julgamentos e estabelece regras para a família, ainda mais, com as frustrações e o tempo consumido no deslocamento da criança até o consultório e espera por ela pode irritar qualquer pais ou mãe. (p.246).

Assim, a clínica com crianças e adolescentes, implica obrigatoriamente o contato com pais, e de acordo com a Psicóloga Fabíola Zaffari, que ministrou o curso “Os pais na psicoterapia de crianças: o sintoma, a técnica e as sessões com os pais”, durante a Jornada 2017 da Clínica Horizontes, há diversos manejos com a participação ativa dos pais que podem contribuir com a evolução do tratamento. Uma forma de trabalho apresentado no referido curso é a co-terapia, método que conforme Zaffari, consiste em atender pais e criança, no mesmo horário, mas com terapeutas diferentes.

Cada terapeuta será supervisionado por profissionais diferentes, e o caso será analisado em conjunto pelos quatro terapeutas. Esse trabalho em conjunto, geralmente realizado dentro de uma instituição, propicia que os pais sejam atendidos por um terapeuta com outra visão, menos identificado com a criança, auxiliando na manutenção do tratamento através da aliança terapêutica, e da maior capacidade em lidar com as frustrações, medos e conflitos que emergem com o tratamento. Também, auxilia os pais que precisam exercer suas funções materna e paterna, tratando os pais, através da observação, compreensão e empatia.

Por fim, diante da experiência de estágio, é possível vivenciar todos os movimentos enquadrados na teoria, ressaltando-se a importância de unir a prática com os estudos teóricos, e de pensar os destinos e manejos que a terapia com crianças e adolescentes pode ter, com uma adequada aliança terapêutica com os pais. Sugere-se a continuidade dos estudos do papel dos pais na psicoterapia de crianças e adolescentes, visando o desenvolvimento profissional no atendimento integrado de pais, crianças e adolescentes.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

CASTRO, M. G. K. et al. Crianças e adolescentes em psicoterapia: a abordagem psicanalítica. Porto Alegre: Artmed, 2009. 360p.

GLENN, Jules. Psicanálise e psicoterapia de crianças. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996.

ZIMERMAN, D. E. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2003. 471 p.