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Contratransferência (1960)

Autora: Sara Fagundes

Formação em Psicoterapia Psicanalítica – Clínica Horizontes

Disciplina: Técnica Psicoterápica III

Professora: Magda Martins Costa

Contratransferência (1960)

Winnicott inicia o texto refletindo sobre voltar ao uso original da palavra contratransferência. Explica dizendo que a palavra self, por exemplo, expressa muito mais do que podemos expressar, mas a palavra contratransferência, para o autor, soa como artificial, que pode ser escravizada, correndo o risco de perder sua identidade.

No estudo de Winnicott “Hate in the Counter-Transference”, o autor diz que um uso da palavra contratransferência deveria ser para descrever anormalidades nos sentimentos, relacionamento e identificações estabelecidos na contratransferência, que estão sob repressão no analista e que, neste sentido, o analista precisaria de mais análise.

O significado da palavra contratransferência pode ser estendido, contudo, desde que seu entendimento seja minimamente esclarecido, para poder ser examinado por um novo ângulo, segundo Winnicott.

Para Winnicott, a característica da técnica psicanalítica reside no uso da transferência e da neurose de transferência. Transferência não é uma questão de relacionamento, ou relações. Ela se refere ao modo de como fenômenos altamente subjetivos aparecem repetidamente. A psicanálise consiste em propiciar as condições para o desenvolvimento desses fenômenos e a interpretação dos mesmos no momento oportuno. A interpretação relaciona o fenômeno específico da transferência a uma parcela da realidade psíquica do paciente, e isso significa em alguns casos relacioná-la ao mesmo tempo a uma parcela da vida passada do paciente.

Em um exemplo típico para Winnicott, um paciente vai gradativamente chegando a sentimentos de suspeita e ódio relacionados com o analista, fato que pode ser visto como tendo relação com o risco de se encontrar com outro paciente, ou com as interrupções devidas a fins de semana ou feriados. Com o tempo uma interpretação faz sentido disto tudo em termos não do presente, mas da estrutura dinâmica da personalidade do paciente. Depois desta elaboração o paciente perde a neurose de transferência específica e parte para outra.

Um dos aspectos da transferência é o da necessidade do paciente de idealizar o analista, e se apaixonar por ele, de sonhar. Freud previu uma ampla gama de fenômenos subjetivos no relacionamento profissional; a análise do próprio analista foi de fato o reconhecimento de que o analista está sob tensão ao manter a atitude profissional. Winnicott pondera dizendo que a análise do próprio analista não é para livrá-lo da neurose, mas sim aumentar sua estabilidade de caráter e a maturidade da personalidade do profissional, sendo esta a base de seu trabalho e de nossa habilidade de manter um relacionamento profissional.

Para Winnicott o analista precisa se manter vulnerável e ainda assim reter seu papel profissional durante suas horas de trabalho, pois o analista que mantem um comportamento correto está mais a vontade do que o analista que retém vulnerabilidade (ainda que mantenha o comportamento correto) que faz parte de uma organização defensiva flexível (termo usado também por Fordham, autor citado por Winnicott).

Quando o paciente, por exemplo, diz que o analista parece sua mãe, isso é um indício que o analista poderá interpretar, não apenas a transferência de sentimentos da mãe para o analista, mas também os conflitos gerados e as defesas então postas. É deste modo que o inconsciente começa a ter um equivalente consciente e a se tornar um processo vivo e se tornar um fenômeno aceitável pelo paciente. O que o paciente encontra é a atitude profissional do analista, não a do homem ou mulher não-confiável que costumamos ser na vida privada.

Winnicott afirma que o analista no trabalho está em um estado especial, isto é, que sua atitude é profissional. O trabalho é feito em uma situação profissional. A atitude profissional é como um simbolismo, no sentido de que pressupõe uma distância entre analista e paciente. O símbolo está no fosso entre o objeto subjetivo e o objeto que é percebido objetivamente.

O analista é objetivo e consistente na hora da sessão, sem pretender ser um salvador, professor aliado ou moralista. O efeito importante da análise do próprio analista neste contexto é que fortalece seu próprio ego de modo a poder permanecer profissionalmente envolvido, e sem esforço demasiado. Na medida em que isto tudo é correto, para Winnicott, o significado da palavra contratransferência só pode ser o de aspectos neuróticos que estragam a atitude profissional e perturbam o curso do processo analítico determinado pelo paciente.

Para o autor, dois tipos de casos alteram completamente a atitude profissional do terapeuta. Um é o paciente com tendências anti-sociais e o outro é o paciente que necessita

de regressão. Winnicott explica que o paciente antissocial está permanentemente reagindo à privação. Sendo assim, o terapeuta é impelido pela doença do paciente a corrigir e continuar corrigindo a falta de apoio ao ego que alterou o curso da vida do paciente. Neste caso o terapeuta irá trabalhar na tentativa de chegar a uma avaliação precisa da privação original, como percebidas pelo paciente quando criança.

No tipo de paciente que necessita regressão ele precisará passar por uma fase de dependência infantil. E, para Winnicott, a maior dificuldade nesses casos está no diagnóstico, na identificação da falsidade da falsa personalidade que oculta o self verdadeiro imaturo. Para o self verdadeiro aflorar é necessário passar por um coapso como parte do tratamento, e o analista precisará ser capaz de desempenhar o papel de mãe para o lactente do paciente. Isso significa dar apoio ao ego em grande escala. O analista precisará permanecer orientado para a realidade externa ao mesmo tempo que identificado ou mesmo fundido com o paciente. O paciente precisa ficar extremamente dependente.

O autor pondera que tais pacientes exigem outras técnicas no manejo do tratamento e em alguns desses casos a técnica psicanalítica não é a melhor opção, ou deve ser aplicada de forma diferenciada, mas Winnicott não aprofunda no texto sobre como manejar tais pacientes.

Winnicott não aconselha estudantes de psicanálise atenderem pacientes psicóticos com necessidades primitivas, porque poucos poderão suportá-las. Por outro lado, o autor nos diz que em uma prática psicanalítica organizada há lugar para alguns pacientes que forçam a passagem do limite profissional, e que realizam estes testes e exigências especiais, que parecemos estar incluindo sob o termo contratransferência.

O autor exemplifica que foi agredido por uma paciente e como reagiu a isso não se pode publicar. Explica que foi uma reação e não uma contratransferência, pois a paciente atravessou a linha profissional e chegou muito perto do eu verdadeiro do terapeuta.

A partir da leitura do texto pude perceber que para Winnicott, Contratransferência, é um termo usado para pacientes neuróticos, onde o analista poderá analisar seus sentimentos e reações a partir da neurose de transferência que ocorre na análise. Com pacientes psicóticos o autor sugere o termo “a resposta total do analista às necessidades do paciente”, de Margareth Little.

Referência

Winnicott, D. W. (1983). O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed.