metapsicologia

METAPSICOLOGIA REVISADA

Roaldo Naumann Machado; novembro de 2017.

Pretendo discutir essas comunicações divididas em quatro metapsicologias, a saber: pulsões, narcisismo, Eu e defesas. Sei da incompletude de tal proposição. Sei também que todas essas questões relacionam-se mutuamente e as hipóteses não podem ser pensadas separadamente. Faço, portanto, apenas uma tentativa.

SOBRE A METAPSICOLOGIA DAS PULSÕES

Seu pensamento (Freud) merece ser qualificado, no mais alto grau, e de maneira mais firme, de racionalista, no sentido pleno do termo, e de ponta a ponta. Este texto tão difícil de penetrar (Além do Princípio do Prazer) com o qual estamos às voltas, presentifica as exigências mais vivas, de uma razão que não abdica de nada, que não diz: Aqui começa o opaco e o inefável. Ele vai entrando, e nem que tiver de ficar com a cara de quem se perde na escuridão, ele prossegue com a razão. Não creio que haja nele qualquer abdicação, qualquer prosternação final, que ele jamais renuncie a operar com a razão, que ele se retire para a montanha pensando que assim está tudo bem.

Jacques Lacan: O Seminário, livro dois: O Eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, p.93.

Portanto, não podemos deixar de iniciar com o que nos propõe Freud em Pulsões e destinos das pulsões (1915c). Nesta ocasião os dois pares pulsionais básicos estavam constituídos pelas pulsões ditas de autoconservação e pela libido (libido sexualis). Genericamente, como propõe Freud, a posição pulsional revela-se no limite entre o psíquico e o somático. Freud também propõe, durante o desenvolvimento de sua obra, uma discussão sobre se a representação psíquica da pulsão de fato é a pulsão ou refere-se apenas a alguns dos aspectos da pulsão.

Do meu ponto de vista a resposta já é colocada quando Freud revela, na obra acima referida, a hipótese de que a pulsão reúne quatro fragmentos, se podemos assim falar: a fonte, a energia e a meta e o objeto. Não podemos deixar de supor que quando o aparelho psíquico apreende a representação pulsional ou as descargas destas mesmas pulsões, essencialmente traduzidas na forma de emoções, esses quatro elementos pulsionais estão presentes de uma forma inferida, especialmente no que tange às representações.

Freud, como já se disse, discute este aspecto em inúmeras obras, mas é no Problema Econômico do Masoquismo (1924c) que nos sugere a resposta mais acabada. Nesta ocasião pergunta-se qual o destino da pulsão, isto é, sua energia, quando não encontra a descarga e o objeto, portanto encontra-se numa incapacidade de se representar. Vemos assim que Freud contempla a pulsão como um fenômeno complexo. Não é aqui o momento apropriado para discutirmos o destino da pulsão quando não se manifesta pela descarga ou pela representação do objeto. Faremos uma tentativa posteriormente quando discutirmos Eros e a pulsão de morte.

Bem mais pertinente ao nosso momento descritivo atual, cabe nos perguntarmos, como Freud perguntou-se, quais as pulsões básicas. Sabemos também que Freud, embora tenha mudado em 1920 (1920g) sua teoria pulsional, jamais abdicou da idéia de duas pulsões básicas em cooperação ou conflito. Nesta ocasião, 1915, as duas pulsões básicas, como dissemos acima, são as pulsões de autoconservação, também chamadas por Freud de pulsões do eu e as pulsões sexuais representadas pela libido. Quais seriam as suas diferenças essências? As primeiras exigem os objetos, não podem passar sem eles. Elas impõem o mundo externo. Estão regidas prevalentemente pelo Princípio da Realidade. Diante desta hipótese, Freud propõe uma organização, O Eu Real Primitivo. Tais pulsões de autoconservação são reveladas pelas “necessidades” fundamentais, como a respiração, a fome, a sede, o sono, etc. Certamente foram chamadas de pulsões do eu, pois necessitam da realidade e o Eu Real Primitivo é o veículo do princípio da realidade e seu respectivo juízo de realidade que neste momento vital adquirem uma prevalência. Quando discutirmos mais pormenorizadamente a metapsicologia do Eu, retornaremos a esse assunto.

Freud nos dá um belo exemplo de como a realidade se impõe ao princípio do prazer. Vejamos um sonho (1900a p.144): quando como anchovas, azeitonas ou algum outro alimento muito salgado no jantar, fico com sede durante a noite e ela me acorda. Esse despertar é precedido por um sonho. Sorvo grandes goles, tão deliciosos como só um gole de água fria pode ser quando estamos mortos de sede, e então acordo e preciso tomar água de fato. Ora, a pulsão de autoconservação tomou a sede como sua representante psíquica que estabelece com o objeto, a água, um vínculo irredutível. Sem o mesmo decompõe-se a homeostase e a morte será sua conseqüência. Veja-se que a água é a representante irredutível da realidade assim como o ar é para a respiração. Não é por nada que a água e o oxigênio são elementos permanentes nas pesquisas de vida nas descobertas extraterrestres. No sonho acima descrito notamos que não basta a alucinação regida pelo Princípio do Prazer. Se a mesma se mantivesse num frenesi alucinatório o Eu se desagregaria (Freud1900a). Portanto é necessário o objeto água para que a ação específica se constitua.

Perguntamo-nos, e a libido, esta outra pulsão bem menos domesticável, mais adicta ao princípio do prazer? Esta se desloca, condensa-se, parece desfrutar da liberdade que outra não tem. É a mãe da metáfora, dos significantes. Aparece num sonho descrito por Freud logo a seguir no mesmo texto, com significados algo diversos. Digo algo, pois a libido intrometeu-se em maior grau. Vejamos: sonhei, apropriadamente, que minha mulher me dava de beber de um recipiente; esse recipiente era uma urna etrusca que eu trouxera de uma viagem à Itália e que mais tarde dei de presente a alguém. Contudo, a água dessa urna tinha um gosto tão salgado (das cinzas, é evidente) que precisei acordar (1900a p.145). A pulsão de autoconservação revestiu-se e foi colorida pelo significante libidinal. Carregado de significados significa algo recalcado, com gosto de cinza do passado. Podemos até supor que foi esta a razão deste despertar diverso do despertar do primeiro sonho. Algo incestuoso abrigaria a urna etrusca trazida da Itália? Água muito salgada? Liquido vaginal na urna etrusca italiana? Qual o desejo a ser recalcado e representado? Estamos diante do recalcamento, do à posteriori, como veremos na abordagem da metapsicologia das defesas.

Precisamos nos centrar, entretanto, na revolução sobre a teoria das pulsões que Freud descreve a partir de 1920. Lacan, no capítulo do Livro dois referido acima dialoga com a perplexidade que a nominação de pulsão de morte lhe causa, como se fosse misteriosa. Não há mistério nisto, há uma apreensão com o destino de nossas vidas. Refere Lacan na obra citada acima que Freud teve que se haver com a energia que aparece nas coisas inanimadas como nas animadas. Por isso que um dos componentes da pulsão, além da fonte, meta e objeto é a energia, sujeita como as leis da termodinâmica nos sugerem (entropia negativa e positiva), a sua preservação e dissipação. Voltamos ao ponto de partida onde Freud se ampara ao grande psicofísico, assim Freud o denomina, Fechner com sua estabilidade e instabilidade, já no primeiro capítulo do Alem do Princípio do Prazer.

Porém, antes de qualquer coisa temos que discutir o título da obra na qual Freud se alicerça: Além do Princípio do Prazer. Recapitulemos o Princípio do Prazer e seu derivado emergente, o Princípio da Realidade. Ambos nos indicam um movimento progrediente da pulsão em busca da descarga e basicamente, do objeto. Se não encontrar o objeto, a energia se dissipa e o Eu se desconstitui. Somos, portanto, quer queiramos ou não, prisioneiros do contexto. Qual o princípio que Freud vai propor nesta busca do Além. O alicerce no qual Freud se assenta, ressurge de uma das primeiras obras, o Projeto de uma Psicologia Científica (1895a).

Na primeira secção do capítulo I Freud propõe dois princípios quantitativos, o da Constância e o da Inércia. Assim o faz: pelas exigências da vida, o sistema de neurônios será forçado a abandonar a originária tendência à inércia, isto é o nível zero (1985a p.341). Note-se que as exigências da vida incluindo a autoconservação e, certamente a libido são progredientes, dirigem-se aos objetos. Freud (1920g) deduz desta junção o divino Eros de Platão.

A inércia procurada para restabelecer o nível zero é a meta de outra pulsão? Freud (1920g) dirá que a vida no momento que a meta atingida, nível zero, está à mercê da pulsão de morte regida pelo Além do Princípio do Prazer, isto é, o Princípio de Nirvana ou Inércia cuja pulsão será operacionalizada pela função regrediente ou desobjetalizante, para usar a expressão de André Green. Em outro sentido, desfaz-se o gradiente da vida pela dissipação da energia que organiza o Eu. Note-se, entretanto, que o fenômeno vivo, seja qual for, mostrará uma fusão permanente de Eros e pulsão de Morte. A desfusão apontará, para fenômenos psicopatológicos graves com a prevalência da pulsão de morte.

Se Freud havia proposto uma teoria sobre o alvorecer da cultura ou civilização da espécie humana, tendo por base o parricídio e a interdição do incesto e a instituição do Totem, âmago do futuro Supereu (1912-13), com o advento da nova teoria das pulsões Freud aventura-se numa hipótese sobre a origem da vida (Problema Econômico do Masoquismo, 1924c).

Vamos então aos prelúdios que lançaram Freud nesta empreitada. Certamente a compulsão à repetição já delineada no Estranho (1919h), baseada na circularidade da libido narcisista contribuiu para sua concepção. Então a transferência que não deixa de ser uma repetição obedece a mecanismos pulsionais, como a compulsão à repetição? Freud deduz este aspecto do estudo das neuroses traumáticas e da brincadeira das crianças cujo modelo famoso conhecido é a brincadeira do carretel (fort-da). Porque, enfim as crianças repetiriam infindavelmente a mesma brincadeira? Elaboração do trauma? Os sonhos traumáticos acrescentariam algo à teoria de que os sonhos são apenas realizações de desejo? Além da realização do desejo, os sonhos elaborariam traumas? Estamos, portanto, diante dos dilemas metapsicológicos da dita segunda tópica.

Interessante intercalar aqui a citação do divino Platão, na qual Freud se sustenta. Fala Erixímaco:

aprendi a lição singular que consiste observar que Eros não se limita a ser um impulso das almas humanas para a beleza humana, sendo sim a atração de todos os seres vivos para uma multiplicidade de coisas, a qual atua nos corpos de todos os animais e tudo que se desenvolve sobre a Terra, e praticamente em tudo que existe, e aprendi quão grandioso, maravilhoso e universal é o governo desse deus sobre todas as coisas, quer humanas quer divinas (Banquete p.33).

Assim o Eros de Platão agrega, constitui complexidades através da instituição de gradientes entre o dentro e o fora.

Não nos esqueçamos que na medida em que Eros agrega as pulsões de autoconservação e a libido, esta última, a Libido, foi promovida de guardiã da vida psíquica para guardiã da vida em geral (Freud 1920G; 1940a). Freud resume de maneira brilhante a sua concepção final da metapsicologia das pulsões (1940a p.146):

Após larga vacilação e oscilação decidimos aceitar apenas duas pulsões básicas: Eros e a pulsão de destruição (a oposição entre pulsão de conservação de si mesmo e da conservação da espécie, assim como a outra entre amor egóico e amor de objeto, situam-se no interior de Eros). A meta da primeira é produzir unidades cada vez maiores e, assim, conservá-las, ou seja, ligá-las; a meta da outra é, ao contrário, dissolver nexos e, assim, destruir as coisas do mundo. Sobre a pulsão de destruição, podemos pensar que tem como meta derradeira transportar o vivo ao estado inorgânico; por isso a chamamos também de pulsão de morte.

Não podemos deixar de constatar que a pulsão de destruição tem direção oscilante e variável no sentido do Eu e do mundo externo. A complexidade do assunto é enorme, pois percebemos que quando destruímos o mundo externo O eu é destruído ao mesmo tempo, pelo menos em fragmentos. Ao destruirmos nosso ambiente (Amazônia), estamos também condenando futuramente nossos pulmões. O Eu individual é indissociável do Eu contextual.

Acrescentemos algo mais. Devido ao fato de que, segundo Freud, as pulsões serem todas elas conservadoras, isto é, desejosas de restabelecer o estado anterior abandonado, acrescenta: deriva-se também daí que o organismo não queira morrer por outras causas que suas próprias leis internas. Ele quer morrer a sua maneira, e, assim também essas pulsões que preservam a vida foram originalmente da morte (1920g p.162). O que penso que isso, em termos simples quer dizer. A complexidade da vida não deixa de ser um drible sobre a morte que inevitavelmente virá cobrar a conta. O fato de que a morte esteja programada no nosso código genético, aponta para o que Freud propôs.

Antes de completarmos de forma inacabada este tópico da teoria das pulsão de autoconservação da espécie, já citada em Pulsão e seus destinos (1915c), aproxima-se muito do conceito de instinto (Instinkt) que no momento deixamos sem examinar.

SOBRE A METAPSICOLOGIA DO NARCISISMO

Antes de divagarmos sobre este tema tão complexo, não posso deixar de dizer que, do meu ponto de vista, o narcisismo não è uma pulsão, é uma organização complexa e permanentemente cambiante na qual atuam tanto Eros como as pulsões de destruição ou pulsões de morte.

O despertar deste conceito ocorre no começo da década de 1910, pouco antes ou depois (1909). Segundo Ernest Jones (Freud 1914c):

Freud declarou que o narcisismo era um estádio intermediário entre o autoerotismo e o amor de objeto. Esta comunicação foi em novembro de 1909. Portanto, veja-se bem, o conceito nasce como uma fase ou estádio relativamente estável que faz parte do desenvolvimento do Eu. Origina-se de uma negociação da libido do Eu e a libido do objeto. O investimento libidinal narcisista do eu, como estádio originário realizado na primeira infância, que é ocultado por envios posteriores de libido, porém conserva-se no fundo atrás dos mesmos (1905d p.199).

Veremos no desenrolar desta comunicação qual narcisismo permanece recalcado.

Algo mais explicito sobre forma de conceber o narcisismo nesta época, surge no seu trabalho Introdução ao Narcisismo (1914d). Após descrever o movimento flutuante e permanente entre libido do eu (libido narcisista) e libido de objeto, Freud profere a famosa formulação que nos acompanha desde sempre: agora bem, as pulsões auto-eróticas são inicialmente primordiais; portanto é necessário agregar-se ao autoerotismo, uma nova ação psíquica, para que o narcisismo se constitua (1914d p.74). Certamente, hoje compreendemos que esta ação psíquica de fato vai constituir uma organização mais complexa do narcisismo. O narcisismo nasce, portanto, como uma fase, um estádio entre o autoerotismo e a relação objetal.

Progressivamente discutiremos como Freud compreende o Eu e o objeto neste particular momento do seu desenvolvimento teórico.

Essas situações descritas seriam relativamente compreensíveis, se Freud não nos trouxesse novos questionamentos. Já na Introdução ao Narcisismo, Freud pergunta-se:

Qual a relação desse narcisismo, do qual estamos tratando agora, com o autoerotismo, que descrevemos como um estado inicial da libido (1914d).

E este Eu descrito como o Eu real inicial, ou originário, essa organização que permite a diferenciação do interno e do externo por marcas distintivas objetivas (1915c p.159), deve sua organização à libido narcisista? No Suplemento Metapsicológico à teoria dos Sonhos (1917 [1915] p.82) Freud afirma:

O desejo de dormir tenta recolher todas as cargas de investimentos que haviam sido enviadas pelo Eu em direção aos objetos e tenta assim produzir um narcisismo absoluto. (Freud (1917[1915] p. 82; o negrito é meu).

Ora, estamos confusos, de qual narcisismo absoluto Freud fala?

Vejamos, entretanto, outras pontuações que nos levam a suspeitar que a organização narcisista seja de grande amplitude. Freud em Além do Princípio do Prazer (1920g p.171-3), partindo de analogias com a biologia nos afirma:

Quanto às células germinativas, estas adotariam uma conduta absolutamente narcísica. Neste mesmo sentido: talvez devêssemos designar também como narcisistas as células das formações malignas que destroem o organismo. A dimensão do narcisismo depreende-se da afirmação de Freud de que é preciso identificar a pulsão sexual com Eros—que tudo preserva—e concluir que a libido narcísica do Eu nasce dos estoques de libido utilizados pelas células somáticas para aderirem umas às outras. Assim justifica-se a hipótese de Freud (1923b p. 55-6) de que com a cópula esvaziamo-nos de substâncias sexuais, que são por assim dizer as portadoras saturadas de tensões sexuais.

Portanto é neste sentido que tal esvaziamento nos torna mais suscetíveis à pulsão de morte como em certas espécies, após a cópula, o macho entrega-se à morte. Tal também é o sentido da ação da pulsão de morte diante das sublimações promovidas pelo Eu.

Ficamos ainda de examinar a afirmação de que Freud, com as hipóteses de pulsão de morte, Eros e narcisismo nos coloca diante da origem da vida (1924c). No Problema Econômico do Masoquismo (p.110) Freud afirma:

de qualquer modo se estivermos dispostos a tolerar algum grau de imprecisão, podemos dizer que a pulsão de morte atuante no organismo—o sadismo original—seria idêntica ao masoquismo. Diríamos, então, que após a parcela principal do sadismo original ter sido transposta para fora em direção aos objetos, um resíduo teria permanecido, e seria este o masoquismo propriamente dito. Isto é, o masoquismo erógeno. Este, por um lado, teria, então, tornado-se um componente da libido, e. por outro, tomaria como objeto o próprio organismo. Assim esse masoquismo seria um testemunho e um resquício da antiga fase de formação tão essencial para a vida, em que houve um amálgama entre pulsão de morte e Eros.

Vejam-se as diversas proposições contidas neste brilhante parágrafo. A primeira dela é que o masoquismo erógeno, tal como Freud propõe, pode ser compreendido como o primeiro enlace narcisista e a própria vida, em suas origens, dependeria de um enlace análogo ao descrito. Em segundo lugar, como já foi proposto no apartado anterior, qual seria o destino da pulsão quando não se descarrega ou não encontra o objeto, quando não se estabelece esta projeção primordial. Seria um masoquismo erógeno tóxico muito próximo de determinadas adições ou organizações psicossomáticas?

Vejamos, entretanto, algumas afirmações posteriores aonde se evidencia essa constante transformação de libido do eu em libido de objeto e vice-versa. Assim como Eros e pulsão de morte constituem um par antitético em constante transformação, o mesmo acontece com a libido do Eu e a libido do objeto. Na 32 conferência introdutória (Freud 1933[1932]), Angustia e Vida Pulsional (p.95):

em casos raros pode discernir-se que o Eu se toma a si mesmo por objeto, se comporta como se estivesse enamorado de si mesmo. Daí o narcisismo extraído da lenda grega. Porém essa não é nada mais do que uma exageração extrema de um estado de coisas normal. Chega-se a compreender que o Eu é sempre o reservatório principal da libido; dele partem os investimentos libidinais aos objetos. Portanto, sem cessar transmuda-se a libido do Eu em libido do objeto e libido do objeto em libido do Eu (negrito do autor).

Na obra derradeira de Freud, Esquema ou Esboço de Psicanálise (1940a p. 148) volta a afirmar aproximadamente o que colocou na trigésima segunda Nova Conferência:

é difícil enunciar algo sobre o comportamento da libido dentro do Id (Isso)e dentro do Supereu. Tudo que se refere a isto se refere ao Eu no qual se armazena toda quantidade de libido disponível. Chamamos de narcisismo primário absoluto (negrito do autor) a este estado. Dura até que o Eu começa a investir com libido as representações de objeto, a transpor libido narcisista em libido de objeto. Durante toda a vida, o Eu segue sendo o grande reservatório do qual são enviados os investimentos libidinais aos objetos, dos quais são retirados os investimentos libidinais realocados dentro do Eu tal como um corpo protoplasmático procede com seus pseudópodes.

Certamente estamos diante das inúmeras identificações constituintes do Eu.


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