NARCISISMO E PULSÃO (TRIEB): IDÉIAS

Artigo escrito por Roaldo Naumann Machado – Psicanalista e Professor no Curso de Formação da Horizontes

Este pequeno trabalho foi lido como colaboração à primeira jornada de metapsicologia da SPPA no ano de 2015 cujo assunto era precisamente Narcisismo e Pulsão de Morte.

Em se tratando de conceitos abstratos gera-se muita incerteza. Como evitá-las se desejamos prosseguir na nossa investigação? Segue-se um texto resumido e algo complexo. Já que o progresso não suporta que tais definições sejam rígidas (Freud 1915c p.145), tome-se o presente como apenas um pequeno ensaio.

Freud no opúsculo O Eu e o Id, mais especificamente no capítulo IV denominado Os dois tipos de pulsão, nos escreve: coloca-se agora para nós uma tarefa mais imediata: é preciso que procedamos a um importante aprimoramento da teoria do narcisismo (1923b p.55), (o negrito é meu). Coloca então que a libido já se encontra no Id e dali parte para o investimento de objetos e retorna ao Id compondo, através dos processos de identificações, a complexidade do Eu. Perguntamo-nos, quais são os importantes aprimoramentos que necessitam serem inscritos sobre a teoria do narcisismo? Freud nos dá algumas sugestões para pensarmos seu raciocínio.

Durante toda a obra de Freud, algo anterior e posterior ao Eu e o Id, este aprimoramento foi pensado e continuamos fazendo-o. Pretendo aqui trazer idéias que possam estar vinculadas a este propósito e, ao mesmo tempo, relacionar os avanços da teoria das pulsões e do narcisismo com outras ciências com o objetivo de torná-los mais claros e objetivos, do meu ponto de vista, tais conceitos. Esta idéia de relacionar a metapsicologia a outras ciências, particularmente à biologia, não é absolutamente alheia ao pensamento de Freud. No próprio texto de 1920, Além do Princípio de Prazer, além de muitos outros, Freud serve-se abundantemente da biologia para alicerçar suas hipóteses de pulsões de vida e morte.

Como ponto de partida, já que estamos tratando de formas pelas quais a vida se expressa, e o narcisismo tanto quanto as pulsões são expressões da mesma, é importante que saibamos que a vida em sua extrema complexidade está intimamente ligada com duas das mais famosas leis da ciência—as leis da termodinâmica (Margulis L. & Sagan D. 2002 p.29).

A primeira lei diz respeito à conservação da energia nos sistemas em geral. Já que nem todas as formas de energia são iguais e o calor é uma forma de energia que tende a desorganizar a matéria, a segunda lei diz que os sistemas físicos tendem a perder calor para seu meio ambiente… Em qualquer sistema dotado de movimento ou que utilize energia, há um aumento de entropia (organização-desorganização). Esta segunda lei, no que diz respeito à vida, isto é, a “entropia negativa”, deverá ser correlacionada entre qualquer sistema vivo e seu meio ambiente. No entanto, qualquer entropia “negativa” está invariavelmente equacionada a uma “entropia positiva”, isto é, a exportação de energias “menos úteis” e a importação de “energias mais úteis”, ou para ser mais preciso, os sistemas vivos com a importação de energia tendem a criar ordens progressivamente complexas e a provocar desordens contextuais (Margulis L. & Sagan D. 2002 p.29-31).

Relativizemos, portanto, estes conceitos de entropia negativa e positiva, energias mais ou menos úteis, com as hipóteses desenvolvidas por Freud em Além do Princípio do Prazer (1920g p.136-7). Freud utiliza a presença do prazer-desprazer e os associa a propostas psicofísicas de Fechner de estabilidade-instabilidade e, posteriormente, as insere dentro do conceito de narcisismo como uma constante e cíclica de transformação de libido do eu em libido de objeto e vice-versa: portanto, sem cessar se transmuda libido do eu em libido do objeto e libido do objeto em libido do eu (Freud 1933a, conferência 32, p.95). Esta cíclica e permanente transformação libidinal é a base da complexidade do Eu e, paradoxalmente, porque não dizer, dialeticamente, o expõe à pulsão de morte pois a defusão pulsional o coloca diante de investimentos desvantajosos de libido narcisista. Isto pensado assim é algo bastante confuso. Tentemos compreende-lo.

Ora, a estabilidade dentro do sistema (Eu), ocorrida após a instabilidade, deriva do aproveitamento de uma energia libidinal de forma mais útil. E isto se realiza com a criação de maiores complexidades através dos processos da identificação e sublimação. Recordemos aqui a afirmação de Freud (1923b p.54-5): lembremo-nos de que o Eu, lidando com os primeiros investimentos objetais do Id…, absorve a libido desses investimentos e a enlaça a modificações que, por meio da identificação, ele mesmo [o Eu] pode promover em si (lembremos que o Eu se inclui dentro dos sistemas autopoéticos, conceito dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela, (Margulis L. & Sagan D, 2002 p.31)). Essa conversão de libido erótica em libido do Eu implica, naturalmente, o abandono das metas sexuais e, assim, uma dessexualização. Podemos reconhecer aqui uma importante realização do Eu na sua relação com Eros. Na medida em que se apodera da libido dos investimentos objetais, impondo-se como único objeto de amor e dessexualizando ou sublimando a libido, ele [o Eu] trabalha contra os propósitos de Eros e se coloca a serviço de moções pulsionais que se opõe a Eros. Percebemos aqui a forma pela qual Freud percebe o paradoxo do processo do desenvolvimento das complexidades do Eu. As medidas da dessexualização, sublimação e mesmo identificação não conseguem anular por completo a ação antagônica da pulsão de morte, pelo contrário, paradoxalmente deixam-no mais à mercê da mesma, pois mesmo as pulsões de vida são conservadoras (Freud 1920g p.163). O objetivo de toda vida é a morte, e remontando ao passado, o inanimado já existia antes do vivo (Freud 1920g p.161). Completamente de acordo com isso está a ulterior afirmativa de Freud (1920g p. 171) de que as células germinativas adotariam uma conduta absolutamente “narcísica”. Compreendemos então que, na medida em que a libido cria maior complexidade decompondo esse máximo de narcisismo absoluto pouco complexo, o Eu é colocado mais a serviço e a mercê das pulsões de morte. Do meu ponto de vista, o Eu complexo põe-se no lugar do pólo masoquista que cede energia libidinal útil ao pólo sádico representado pelo Super-Eu e o mundo externo decompondo os gradientes vitais reduzindo-o ao estado de “nirvana”.

No início de nossa vida ontogenética, no que futuramente Freud denominará de Eros, as pulsões sexuais e de autoconservação, também denominadas por Freud de pulsões do Eu, coincidem na busca desta “energia” estruturante da vida e do eu. O contexto representado pelos objetos, já inscrito neste saber prévio que também Freud descreve como o instinto (Instinkt) (1918b p. 108-9), resume-se desta maneira: no peito da mulher o amor e a fome se encontram (1900a p. 226). E, sabemos quão importante e estruturante é este encontro onde o contexto, o peito, recebe o investimento libidinal estruturante-desestruturante e deve devolvê-lo com a prevalência evidente da “energia útil”. O problema reside no afirmado acima por Freud. Todas as pulsões são conservadoras. Deriva-se também daí que o organismo não queira morrer por outras causas que suas próprias leis internas (apoptose inscrita na filogênese). Ele quer morrer à sua maneira, e, assim também essas pulsões que preservam a vida na verdade foram originalmente serviçais da morte (Freud 1920g p.162). O que se passa neste encontro de “estruturante-desestruturante na relação tão vaga, se assim descrita, a relação entre o Eu e o Objeto? Penso ser em grande parte, a “especificidade” deste encontro. Este tema demandaria outro estudo com uma atenção toda particular e especial ao sistema perceptual-consciente, ao o que está inscrito no Id como “saber prévio”, e suas relações com o contexto, pois tal especificidade é sumamente complexa. Note-se que Freud já propunha (1915c p.151) que as pulsões sexuais (libido) são elásticas, pouco educáveis, enganam-se com freqüência, trocam seus objetos com facilidade. Mesmo assim é devido às mesmas a criação de qualidades e complexidades, sem é claro, perderem a divida “especificidade”. Se este encontro com a especificidade não ocorrer, pelo menos ilusoriamente, fica o Eu muito mais exposto ao “trauma” e, consequentemente à pulsão de morte.

Não podemos deixar de lembrar as considerações de Freud (1925h p.149-50) de que a reprodução do percebido na forma de uma representação mental nem sempre é sua fiel repetição; ela pode ser modificada pela omissão de diferentes elementos ou pela sua condensação, diríamos que também pela sua complementação, pois muitas vezes podemos observar que o esquema (adquirido pela filogênese) triunfa sobre o vivenciar individual (Freud 1918b p.109). Assim o encontrar um objeto é de fato reencontrá-lo (Freud 1905e, citado por Strachey J. in Freud 1925 h p. 154).

Posso, entretanto, perfeitamente supor que esta capacidade de criar complexidades revela-se também através do conceito de “masoquismo erógeno”, este sadomasoquismo primordial e é propiciada e mantida pelo encontro primordial entre Eros e pulsão de morte, abaixo descrito: diríamos, então, que após a parcela principal do sadismo original ter sido transposta para fora em direção aos objetos, um resíduo interno teria permanecido, e seria este o masoquismo propriamente dito, isto é, o masoquismo erógeno. Este, por um lado, teria então, tornado-se um componente da libido e, por outro, tomaria como objeto o próprio organismo. Assim, esse masoquismo seria um testemunho e um resquício da antiga fase de formação tão essencial para a vida (o negrito é meu), em que houve amálgama entre a pulsão de morte e Eros… O masoquismo erógeno teria participado de todas as fases evolutivas da libido, extraindo delas suas variadas e cambiantes roupagens psíquicas (Freud 1924c p. 110). Note-se que Freud, além de nos fornecer uma teoria sobre o desenvolvimento ontogenético das complexidades do Eu, nos sugere uma teoria sobre os primórdios da vida.

É, portanto, o “peito da mulher” o âmago que impede a desestruturação do Eu emergente e o impele para a vida. Não seria, portanto, o masoquismo erógeno primordial um dos enlaces mais primordiais do que denominamos narcisismo? O “peito da mulher” não receberia e metabolizaria a agressão primordial e a devolveria propiciando enlaces narcisistas complexos? Seria este um importante aprimoramento à teoria do narcisismo? Também o narcisismo acompanha todas as fases evolutivas da libido, extraindo delas suas variadas e cambiantes roupagens psíquicas tal qual o masoquismo erógeno?

Repare-se que a afirmação acima de Freud citada no Eu e o Id de que a libido parte do Id e retorna ao mesmo através dos objetos, é praticamente semelhante à referida no Problema Econômico do Masoquismo, onde o sadismo ou pulsão de destruição projetada retorna ao Eu por introjeção, compondo o masoquismo secundário que se assenta sobre o primário, estruturando o Eu e, se quisermos ser um pouco mais prolixos e indefinidos, compondo a “entropia negativa” (Schrödinger p. 83-5), o âmago da função de Eros como pulsão vital, guardiã da vida (Freud 1920g p.164).

Não é possível, portanto, pensarmos estes complexos fenômenos organizacionais vitais, descritos como narcisismo e pulsão, sem os inserirmos com certo rigor nas referidas leis da física e da biologia. Penso que isto não pode ser pensado como um reducionismo e sim, como uma inserção. É claro que tudo isto nos parece um tanto distante da nossa sofisticada psicanálise, mas o que posso fazer.

Dentro do proposto não parece haver duvidas sobre a existência desta permanente fusão narcísica pulsional Eros e Pulsão de Morte e suas infinitas variantes cíclicas. Já que hoje pensamos numa morte programada (apoptose), não seria lícito supormos que uma forma adquirida com o desenvolvimento filogenético poderia ser o que denominaríamos de instinto (Instinkt) de morte ao lado e complementando-se com o instinto (Instinkt) de vida? Se este, como pertinentemente assinala Freud (1918b p.108), compreende esquemas (Schema) congênitos por via filogenética que, como “categorias” filosóficas, realocam as impressões vitais, adquiridos como precipitados da historia da cultura humana, organizando as representações humanas em categorias de espaço e tempo, porque não pensarmos instinto de morte (Instinkt) como seu negativo?

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Freud S. (1900a): A Interpretação dos Sonhos, Porto Alegre, L&PM Editores, 2012.
Freud S. (1915c): Pulsões e destinos da Pulsão. Rio de Janeiro, Imago, 2004, vol. 1, ESPN
Freud S. (1918b): Da história de uma neurose infantil (O homem dos Lobos) in: Sigmund Freud, Obras Completas, Buenos Aires, vol. XVII, Amorrortu, 1989.
Freud S. (1920g): Além do Princípio do Prazer, Rio de Janeiro, Imago, 2006, vol.2 ESPN.
Freud S. (1923b): O Eu e o Id, Rio de Janeiro, Imago, 2007, vol. 3, ESPN.
Freud S. (1925h): A negativa, Rio de Janeiro, vol. 3, ESPN.
Freud S. (1934c): O problema econômico do masoquismo. Rio de Janeiro, Imago, 2007, vol.3 ESPN.
Freud S. (1933a): Novas conferências introdutórias: Angústia e Vida Pulsional in Sigmund Freud, Obras Completas, Buenos Aires, vol. XXII, Amorrortu, Buenos Aires.
Margulis L & Sagan D.: O que é vida, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2002.
Schrödinger E.: O que é vida. São Paulo, Fundação Editora da UNESP, 1997.