Narcisismo na contemporaneidade e nas Relações Intersubjetivas

Artigo escrito por Carlos Marcírio Naumann Machado (Psicólogo Clínico CRP – 07/10360 / Membro Aspirante Graduado (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre).

narcisismoUm dos filmes mais vibrantes dos últimos tempos e que bateu recordes de audiência e de tempo de exibição, no nosso meio, foi Relatos Selvagens. Um dos motivos presumíveis para tanto é a aprimorada demonstração da convivência dialética entre a luta pulsional de dominar e, ao mesmo tempo, da necessidade de satisfação narcisista que aparece em cada sujeito. Em todas as seis antologias apresentadas nesse filme, esse jogo dialético entre as correntes pulsionais e narcísicas sobressai. Dito de outra forma, os movimentos pulsionais objetivariam não apenas diminuir as tensões internas, mas, também, e ao mesmo tempo, satisfazer (talvez ilusoriamente), as dimensões das buscas de completude narcísica de cada um. Ou seja, o permanente embate dos personagens é em cima de competir e ganhar. E, com isso, aumentar a autoestima. Pode-se supor que a excitação com essa obra cinematográfica advém, então, dela imitar de forma caricatural a vida de fantasia que todos possuímos e que costura as perspectivas pulsionais e narcísicas.

Qual seria o diagnóstico encontrado em alguns dos principais personagens? Seriam narcisistas? Seriam núcleos narcisistas em pacientes neuróticos? Seriam traços de caráter narcisista que, em situações de intensa frustração, pressão e ansiedade, viriam à tona como defesa? São dúvidas que a gente tem e que às vezes ficam sem resposta. Mas, sem dúvida, esses cenários permeiam as relações humanas cotidianas.

Presumo que, nessa linha de pensamento, o estudo dessa temática pode nos ser útil. Considerando-se a clínica psicanalítica contemporânea, além de interessante, pode ser produtivo estudar a especificidade do tema, já que parece haver evidências substanciais de que os traços narcísicos são muito comuns no momento presente, permeando sobremaneira o nosso universo cultural. Imagino, inclusive, que as inúmeras acepções vinculadas ao termo “narcisismo” necessitem ser mais bem elucidadas, já que essa expressão, no ambiente psicanalítico, ainda é, algumas vezes, carregada com colorido pejorativo. Conjeturo, inclusive, que estudar autores com diferentes entendimentos teóricos possa agregar consistência às consideráveis ferramentas clínicas já existentes.

A contemporaneidade configura-se estimulando a cultura do narcisismo. As diferenças tendem a ser negadas, de gênero, de gerações. As novas configurações familiares estão aí mesmo e, presume-se, vieram para ficar. A cultura do corpo é incentivada, não só como saúde, mas principalmente como uma negação da passagem do tempo. Tudo hoje é instantâneo e descartável. A competitividade predomina na cultura atual, e fica claro que não se trata apenas de um jogo pulsional de domínio; além disso, parece ser um jogo de abastecer e manter o narcisismo de cada um. A ideia de alcançar plenitude e da intolerância à frustração trafega comumente no comportamento corrente. A maldade humana parece corriqueira, mascarada, inúmeras vezes, por revestimentos grandiosos e brilhantes, ou por um falso self que aparenta humildade. A excessiva competição muitas vezes encobre e aceita a maldade como algo até mesmo trivial.

Desta forma, é bastante habitual, nas contingências da vida, que nos defrontemos com situações que envolvam litígios nas relações humanas. Pertence ao cotidiano essa condição. As disputas, veladas ou não, permeadas por sentimentos dos mais variados em múltiplas graduações, como raiva, inveja, ciúme, competição, controle e domínio, estão presentes nos momentos mais rotineiros e recorrentes do convívio, em todas as categorias humanas, desde familiares, conjugais e institucionais.

Assim sendo, o estudo destes conflitos, abundantes nos vários campos intersubjetivos do viver, inclusive no setting (matriz transferencial-contratransferencial), partindo-se das necessidades de completude narcísica de um determinado paciente, configura-se adequado para nós, reforçando mais ainda todo um alicerce psicanalítico que já está consolidado. E, aparecendo no campo psicanalítico, entre paciente e terapeuta, aí mesmo é que a questão pode ser enfocada e, quem sabe, elaborada.

Diante dessas considerações, apresento a ideia de um projeto de grupo de estudos sobre o narcisismo, que contempla autores que já são estudados, alguns mais, outros nem tanto, nas nossas instituições, no entanto, sobre o tema narcisismo, de forma dispersa. Ou seja, a proposta aqui é convergir no estudo detalhado das questões narcísicas que aparecem entremeadas com o universo pulsional, em qualquer estrutura nosológica.

A particularidade deste empreendimento tornou-se consideravelmente viável, uma vez que, nos dois últimos anos (2013 e 2014) dos seminários de formação psicanalítica, na SPPA, houve muita dedicação ao tema, já que desenvolvi trabalhos anuais nessa área, sobre Grunberger e Green. Tenho me dedicado bastante a esta temática, inclusive com artigos que foram apresentados nos congressos da Fepal (2014 e 2016) e da Febrapsi (2015).

Literatura sugerida e particularizada de cada autor
GREEN, A. (1982). Prefácio – O Narcisismo e a Psicanálise: Ontem e Hoje. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988.
____. (1980). A Mãe Morta. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988.
____. (1979). A Angústia e o Narcisismo. In: Narcisismo de Vida, Narcisismo de morte. São Paulo: Editora Escuta, 1988. p. 143-185.
____. Pulsão de Morte, Narcisismo negativo, Função Desobjetalizante. In: O Trabalho do Negativo. Porto Alegre: ARTMED, 2010.
GRUNBERGER, B. (1971). Introduccion. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1960). Estudio Sobre la Relacion Anal-Objetal. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1964). De La Imagen Falica. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb,1979.
____. (1967). El Edipo y El Narcisismo. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Edirorial Trieb, 1979.
____. (1965). Estudios sobre la Depression. In: El Narcisismo. Buenos Aires: Editorial Trieb, 1979.
KOHUT, H. (1966). Formas e Transformações do Narcisismo. In: Self e narcisismo. São Paulo: Imago, 1984.
____. (1972). Reflexões acerca do Narcisismo e da Fúria Narcísica. In: Self e narcisismo. São Paulo: Imago, 1984.
STOLOROW, R. D. & LACHMANN, F. M. Definição Funcional do Narcisismo. In: Psicanálise das paradas do desenvolvimento – teoria e tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
____. Idealização e Grandiosidade. In: Psicanálise das paradas do desenvolvimento – teoria e tratamento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.