O conceito de desejo em Psicanálise

Artigo escrito pelas Psicanalistas da SBPdePA: Maria Isabel Pacheco / Patricia Mazeron  / Renata Vives /Katya Araujo 

artigo desejo psicanaliseO conceito de desejo, na teoria freudiana, aparece mais na primeira tópica e é nesta que Freud implanta a teoria representacional; quando falamos de desejo, falamos de investimento da representação, sendo que é a representação que caracteriza o fenômeno psíquico.

O desejo nasce quando ocorrem as primeiras vivências de satisfação, com a formação do aparato psíquico, ou seja, o surgimento do desejo inaugura o psiquismo e será o motor deste aparato.

Segundo Valls (1995) a experiência de satisfação funda um complexo representacional que se apresenta com três tipos de representações:

1) A representação do objeto de satisfação, ou seja, a primeira que se ativa quando se reanima o desejo;

2) A representação dos movimentos que se fizeram com este objeto e o que este fez;

3) A representação da sensação de descarga.

A necessidade deixa registros na memória, que ficam associados às percepções geradas pela experiência de satisfação (imagens mnêmicas). Na próxima aparição da necessidade, em função do enlace estabelecido, ocorre um movimento psíquico que irá querer investir novamente na imagem mnêmica, ou seja, reestabelecer a situação da primeira satisfação.

“Uma moção desta índole é o que chamamos desejo; a reaparição da percepção é o cumprimento do desejo e o caminho mais curto para este é o que leva desde a excitação produzida pela necessidade até o investimento pleno da percepção”. (Valls, 1995,citando Freud em Interpretação dos sonhos, p. 194)

O desejo é o desejo de voltar a reviver a experiência de satisfação, aquela primeira vivida no vínculo com o outro e que agora é o objeto desejado.

“Cada vivência de satisfação irá deixando novos desejos; as pulsões de auto-conservação vão ficando mais repetitivas enquanto o objeto será mais fixo”. (Valls, 1995, pg. 194).

Já as pulsões sexuais irão mudando os desejos conforme as zonas erógenas do período até chegar à supremacia fálica, quando se organizam em uma direção e ocorre a eleição de objeto, que por ser incestuoso deverá ser reprimido. O objeto das pulsões sexuais irá se modificando ao longo do desenvolvimento, mas vai diminuindo conforme vai produzindo fixações, podendo ficar no próprio corpo.

A escolha de objeto sexual (externo) se sustenta em parte nas pulsões de auto-conservação e em parte no próprio corpo, onde o objeto deixou seus registros. Então “a história do corpo e sua representação irão definindo o Eu”. (p.195)

Os desejos inconscientes dos objetos poderão chegar ao pré-consciente, a partir do período pré-edípico, pois com a aquisição da linguagem, podem ligar-se às representações palavra gerando assim os desejos pré-conscientes.

“Depois do complexo de Édipo o aparato psíquico se cindirá e múltiplos desejos (incestuosos, parricidas e os infantis) serão reprimidos, passarão ao estado de inconscientes e lá permanecerão.”

O Ego tira o investimento da representação-palavra, nega sua existência e não reconhece os desejos como seus. Mas estes desejos permanecerão querendo retornar, diretamente ou por meio de deslocamento pré-consciente que os representem e ao mesmo tempo evitem a censura. Esse retorno origina os sonhos, atos falhos, sintomas neuróticos, etc.

Freud menciona nas Novas Conferências Introdutórias (1933), os desejos do superego contidos nos sonhos punitivos, de auto-castigo. Esses desejos são resultantes de sentimentos de culpa, que mesmo desconhecido pelo ego funcionam como desejo que se satisfaz periodicamente com o sofrimento do próprio Ego. O sofrimento impresso depende, provavelmente, dos diferentes graus de mistura de Eros e Pulsão de Morte que estão em jogo (sadismo do superego e masoquismo do ego).

Em termos gerais, segundo Valls (1995) quando nos referimos a desejo inconsciente nos referimos a desejo sexual, mesmo que a posse de representação (de coisa e de palavra) dê à pulsão de autoconservação característica desejante.

Segundo Freud, não pode haver desejo correspondente à pulsão de morte, pois não há no Inconsciente representação coisa desta (morte). “É uma contradição falar de uma vivência de morte que deixe sua marca no aparato psíquico.” O que pode acontecer é uma necessidade inconsciente de castigo que provém do superego.

Paradoxalmente sabemos da existência de uma pulsão de morte “muda”, que se falasse seria através das representações (de coisa e de palavra) do desejo sexual, com o qual está misturado.

O conceito de desejo se confunde com o de pulsão, bem como o de libido sexual, mas são coisas diferentes. Pulsão, para Freud, “é um conceito limite entre o somático e o psíquico. O desejo relaciona-se mais com o lado das representações. Por isso Freud

fala em “satisfação alucinatória de desejo” e não em “satisfação alucinatória de pulsões”.

Valls (1995), ao diferenciar os conceitos de libido e desejo, nos aponta a dificuldade em falar de desejo narcísico puro, pois afirma que poderia fazê-lo como extensão do conceito de desejo homossexual, mas que mesmo assim ainda estaria referindo se a um objeto. Exemplifica esta afirmação com a dependência da criança ao amor do objeto no período de latência em que pode tomar para si, como próprios, os desejos do objeto. A criança, em geral, resigna suas pulsões para garantir o amor materno.

Conforme Valls (1995) poderíamos pensar, portanto, que a necessidade do amor do objeto não é narcisista no sentido mais restrito do termo, uma vez que, desejar ser amado pelo objeto, ou desejar ser o ideal, está constituído por marcas de objetos do passado infantil ou da onipotência perdida. Assim, “são desejos narcisistas, porém nunca falta o rastro do objeto em todas as complexizações do desejo”.

De acordo com Hanns (1996) Wunsch é um substantivo que é traduzido por desejo, sendo que este dirige-se ao que é almejado, diferenciando-se no texto freudiano de lust, que significa vontade, desejo e prazer e de Begierde, que representa desejo intenso, sofreguidão.

É utilizado para expressar algo menos imediato, objetos que se apresentam para o sujeito como um ideal, algo sonhado, sendo este de caráter imaginário. Difere-se do sentido em português, onde desejo é usado como um querer mais imediato e referindo-se também à sexualidade, sentido este que não está contido em alemão.

Tanto no Projeto para Psicologia Científica (1895) quanto na Interpretação dos Sonhos (1900) Freud usa o termo Wunsch no sentido de desejo alucinatório. Coloca ainda em 1900 que nada, senão o desejo pode colocar nosso aparelho anímico em ação. O termo Wunsch está presente na obra de Freud desde suas primeiras formulações sendo que é no texto da Interpretação dos Sonhos que é elaborado mais detalhadamente. Hanns (1996) salienta que de forma geral pode-se dizer que o “desejo” circula preponderantemente na esfera representacional, nas regiões do “pensamento”, do “sonho”, da “fantasia”, do “idealizado”, do “imaginado”, do “alucinado” e da “loucura”. Segundo o mesmo autor, Freud, muito raramente emprega o termo “satisfação” (Befriedigung) em conexão com desejo (Wunsch), sendo a palavra “realização” como também a palavra “desejo” pertencentes à esfera do idealizado, do almejado e do anímico.