jovem psicanalista

O Papel da Instituição de Ensino na Formação de Orientação Psicanalítica do Jovem Terapeuta

Artigo escrito por Priscila Oliveira da Cunha / Graduanda em Psicologia – FADERGS

 Ao aproximar-se do final do curso da graduação em Psicologia, algumas escolhas precisam de definição, dentre essas, decidir qual teoria norteará o trabalho e os estudos contínuos do jovem terapeuta.

A Psicanálise, teoria tradicional, que separa grupos de alunos nas faculdades, através de críticas ou do “apaixonamento”, exige do jovem terapeuta grande dedicação, considerando que o tripé psicanalítico determina que você deverá estudar a teoria, fazer análise e supervisões, constantemente. Para definir que será nesse contexto que a prática vai de realizar, é preciso estar motivado a cumprir com essas regras e essa motivação é construída já no decorrer da graduação. Incentivados pelas faculdades, e em busca de horas complementares, alunos percorrem diversas instituições de ensino, que oferecem cursos, seminários, jornadas, simpósios e infinitas atividades que colocam o aluno em contato com o mundo dos teóricos e da prática da Psicologia.

O papel dessas instituições é fundamental, pois através delas é que o jovem terapeuta se identifica com a teoria, com a forma de ensino e de trabalho e então se define sobre qual teoria se debruçará. Mas como escolher a Instituição? Em qual local se colocará em prática o aprendizado da graduação e desenvolverá habilidades técnicas?

Na minha vivência pessoal, essas questões foram respondidas através de um sonho. Mas para chegar até esse sonho, foi uma longa jornada, conhecendo diversas Instituições. Minha escolha pela Psicanálise já estava determinada, pelos estudos, grupo de estudos, pelo tratamento: psicoterapia de orientação Psicanalítica. Precisamos querer uma Instituição, procurar por um encontro, somos escolhidos e escolhemos o local de estágio e de estudo, para ali se desenvolver como profissional de acordo com as possibilidades pessoais e com o jeito de ser de cada profissional em formação. A busca é por um local que deixe o inexperiente aluno à vontade com o seu não saber, com sua mínima experiência, com sua sede de fazer perguntas sobre o básico, sobre o fundamental, sobre o seu início.

Chegou o tempo de fazer o estágio clínico, o mais esperado e também o que mais mobiliza os estudantes. É tempo de colocar em prática todo o aprendizado, de se dedicar e de se candidatar às seleções dessas Instituições. Momento que desperta a ansiedade, o temor de se submeter a um estágio em um local não desejado, apenas para cumprir com as obrigações da grade curricular, e claro, ninguém quer isso para si. As entrevistas iniciaram ainda na metade do semestre, dinâmicas de grupo e individuais, logo chegou um não de uma Instituição, e então se reinicia todo o processo novamente. Sentimentos de cansaço e frustração, a competição entre colegas e as poucas vagas disponíveis. Os locais já antes frequentados e conhecidos pareciam fechar suas portas.

Desistir não estava no rol de possibilidades, alguém falou que há uma Clínica na Zona Sul, que tem uma equipe muito acolhedora. Por que não tentar? Na apresentação inicial a primeira surpresa, agradável surpresa. A dinâmica em grupo seria observada por uma Psicóloga e por uma estagiária da Clínica. Uma estagiária provida de conhecimento, apropriada das informações e identificada com a Casa. Era inédito o que acontecia, estar sendo avaliada por uma colega na mesma posição dos entrevistados, aluna em desenvolvimento, que através do olhar buscava deixar o momento menos tenso. Então veio a resposta: primeira suplente, se alguém desistir você será bem-vinda. Aquilo soou como um “não”. Mas não um “não” daqueles que deixa as pessoas desmotivadas e tristes, mas sim um “não” de “infelizmente não temos braços para acolher todos os candidatos”. O sentimento é de gratidão, registrei por mensagens de texto esse agradecimento e principalmente, a expectativa de uma oportunidade para integrar o grupo de estagiários da Instituição. Novamente a resposta: a Casa está de braços abertos para você.

Alguns dias se passaram, alguém desistiu, e em uma ligação você passa a compor a equipe. O momento não poderia ser mais favorável, realizar o estágio clínico, sob o viés psicanalítico em um local que está em crescimento. A Casa oferece palestras, cursos, grupo de estudos e formação em psicoterapia de orientação psicanalítica.

Os pacientes são encaminhados, casos de família, de casais, de crianças. A ansiedade e a inexperiência inundam o viver diário, os demais âmbitos da vida ficam em segundo plano, a dedicação e a atenção aos sentimentos despertados são o foco de todo pensamento consciente, da terapia e dos sonhos. Passamos então ao momento do sonho. Após alguns dias de atendimento, alguns sonhos, um breve curso sobre o trabalho dos sonhos, o sonho: a paciente, a terapeuta, a sessão de terapia, e estranhos passando. Uma sessão de terapia a céu aberto. Resumidamente, uma sessão de terapia pública. Para dar conhecimento ao terapeuta mais algumas semanas, mas dividir com colegas, professores e outros psicólogos parecia tarefa simples e até divertida.

O sonho surge em sessão de terapia, ao recordar, nenhuma angústia, até uma estranha sensação de conforto. Ao elaborar, surgem questões íntimas, das entranhas do jovem terapeuta em contato com o outro, com o paciente, do temor de ser visto, de ver no outro suas vivências, de se entregar à escuta. Mas também a tranquilidade de estar em um local seguro, um local onde os questionamentos básicos, fundamentais, e que podem até parecer bobos, serão devidamente escutados, podem ser verbalizados sem o mínimo cuidado, serão recebidos e respondidos com tranquilidade. Às vezes, um charuto é só um charuto!

Quando alguém imaginaria que um local que não havia conhecido previamente, disponibilizaria de um acolhimento jamais visto em tantos outros locais ordinariamente frequentados? A cada vivência, um novo aprendizado, numa simples manhã de sábado de inverno, um encontro para tomar um café e discutir sobre a importância do tripé psicanalítico. Mais uma vez surge a importância da Instituição, que como facilitadora, proporciona as condições para o desenvolvimento do terapeuta em formação, que inclui além da escolha dos textos, mas a empatia dos profissionais, o respeito pelos que estão aprendendo, o cuidado com as pessoas. Quem quer ser profissional da área da Psicologia, deve saber, trabalhamos com pessoas e para pessoas.

Hoje, iniciando a formação em psicoterapia de orientação psicanalítica, ao ler o primeiro texto, na primeira nota de rodapé, a seguinte frase:

“Cinzenta, meu querido amigo, é toda teoria, E verde somente a árvore dourada da Vida” (Mefistófeles, em Fausto, Parte I, Cena 4 – Analogia referenciada por Freud no texto “Neurose e Psicose”.

A pessoa da Instituição, local escolhido para nos desenvolver, deve ser séria, deve ter responsabilidade, deve ter capacidade de nos integrar, nos fortalecer profissionalmente, de acolher toda ansiedade, toda angústia, tem a obrigação de incluir o jovem terapeuta na equipe, resguardando-o pela supervisão, pela troca de experiência, e desse modo ampliar nossos Horizontes.