PARTICIPAÇÃO ATIVA E CONSTANTE DOS PAIS: ISTO FAZ DIFERENÇA?

Artigo escrito por  Josiane Weiss – Psicóloga, Especialista em Psicoterapia Psicanalítica e Mestre em Psicologia do desenvolvimento

 É por meio da vida em família que se aprende a ser indivíduo, tornar-se um membro de uma determinada sociedade. É na família que se dá o essencial da constituição da identidade das pessoas, é com os pais que se aprende o que se é ou o que se pode ser.

Considerando que os fatores genéticos da personalidade já estariam pré-estabelecidos, mas que sobre os fatores ambientais pode haver alguma ação positiva, seria fundamental que a criança pudesse receber suporte e cuidados estáveis de seus cuidadores, principalmente durante os primeiros anos de vida. Para o Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime, pais e familiares são entendidos como prioridade universal de prevenção, em função de seu papel de suporte ao desenvolvimento saudável de suas crianças.  O adequado monitoramento parental e uma forte relação afetiva são positivamente correlacionados com decréscimo de doença mental, de uso de drogas e de envolvimento com o crime.

É do senso comum aceitarmos como necessária a avaliação de determinadas capacidades, conhecimentos ou potenciais para assumirmos novas responsabilidades e nos habilitarmos a situações específicas da vida. É assim para avançarmos de série na escola, ingressar numa faculdade, obtermos carta de motorista, habilitarmos para empregos, etc. Entretanto, a maternidade e a paternidade surgem na vida dos indivíduos imputando-lhes responsabilidades e vivências, sem perguntar se realmente estão habilitados para tal. Mesmo o desejo intenso de um filho não nos traz garantia de condições de exercício adequado desta nova tarefa. As características de personalidade e nível de maturidade emocional fazem com que, muitas vezes, questões da dinâmica de relacionamento do casal fiquem muito fundidas com o que deveria ser a relação da díade enquanto pais, ou a relação de cada figura parental com o filho.

Falar em família pressupõe falar dos papéis que pai e mãe, respectivamente desempenham, e da importância deste casal poder funcionar como dupla complementar. Fala-se aqui de casal de pais, independente do vínculo jurídico por estes mantido e das condições de convívio. Enquanto relação afetiva marital esta pode ser desfeita, mas o laço de pais de um mesmo filho é indissolúvel: não existe ex-pai, ex-mãe ou ex- filho…..

As crianças parecem aprender o que esperar do mundo através de suas experiências com seus cuidadores primários. Estas experiências são responsáveis não só pela criação e manutenção de fortes laços afetivos no início da vida humana, mas também pelas muitas formas de distúrbio emocional e transtornos de personalidade, incluindo ansiedade, angústia, depressão e desapego emocional, que resultam do mau estabelecimento destes laços. Estes laços promovem não só a capacidade de estabelecimento de vínculo afetivo, mas também a capacidade de busca de proximidade das figuras de pai e de mãe como forma de sentir-se seguro e confiante frente a situações aflitivas da vida.

Este é um desafio importante em termos de saúde pública: Como estabelecer programas de intervenção precoce, que mediem esta interação?   Programas educacionais durante a primeira infância que envolvem e oferecem suporte aos pais nos aspectos de cuidado e criação de seus filhos, e que incluem visitas familiares, têm demonstrado evidências de efetividade na prevenção de desvios do desenvolvimento psíquico. Hoje se sabe que existem alguns fatores que atuam como fatores de risco e outros de proteção afetando a criança em diferentes estágios de sua vida, e de diversas formas. Quanto mais uma criança for exposta a fatores de risco, mais ela poderá vir a apresentar problemas. É preconizado como importante fator de proteção uma forte e positiva relação afetiva entre a criança e seus pais ( ambos). Este fator pode assumir grande impacto na redução de riscos durante os anos iniciais de vida, onde se dá a base de construção de toda a personalidade. São apontados como situações de risco a fragilidade de apego estabelecido pelos pais, paternagem inefetiva, e abuso de substâncias psicoativas por parte dos cuidadores. Como situações de proteção familiar são apontadas a forte união afetiva entre crianças e pais, envolvimento das figuras parentais na vida de seus filhos, e existência de limites claros e cumprimento de disciplina.

Fica evidente, neste sentido, que a exclusão ou interação dificultada de qualquer uma das figuras parentais da vida da criança, salvo exceções de real dano pelo convívio que precisam ser avaliadas e identificadas por especialistas, só tem a contribuir negativamente para o desenvolvimento psicológico do menor envolvido na disputa. Cabe aos julgadores da área de direito de família o papel de auxiliar estas famílias litigantes com situações de alienação parental a, em amando seus filhos, encontrarem outros fóruns de elaboração de suas pendências sentimentais, e aprenderem a respeitar o direito de toda criança de ter pai e de ter mãe.