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Recriando a própria história

Por Sara Fagundes – Estagiária de Psicologia na Clinica Horizontes

Texto tirado do livro: Construindo vínculo entre pais e filhos adotivos, da autora Maria Salete Abrão

Nascemos todos em uma condição de absoluto desamparo. Diferentemente de outros mamíferos, que parecem já nascer “prontos”, inauguramos nossa presença fora do útero em situação de dependência total da mãe, da família, do grupo que nos cerca. Sem tal suporte, viveríamos sozinhos apenas algumas horas. Daí a excepcional importância, para o bebê, daqueles primeiros dias, semanas, meses, primeiros anos.

Trata-se de uma importância que se estende para muito além das necessidades físicas e biológicas. O seio materno supre muito mais que a fome e a sede. É o prazer mais primitivo do bebê, é seu vínculo inicial com o mundo, que ele não sabe ainda diferenciar de si próprio.

Para construir uma relação equilibrada com o mundo exterior e consigo próprio, esses momentos iniciais são decisivos. No entanto, basta dar uma olhada ao lado para verificar que muitos de nós não passamos bem por esse período. Não tivemos aquilo que o pediatra e psicanalista inglês, David W. Winnicott, chamava de “mãe suficientemente boa”.

No entanto, não culpemos a mãe. Ela já carrega culpas demais. Além disso, é bem possível que as mães que não foram “suficientemente boas” tenham sido também, elas próprias, geradas e criadas por mães que não foram “suficientemente boas” – estabelecendo-se assim um círculo vicioso, cuja origem remonta ao começo dos tempos.

O fato importante é que a filiação biológica não garante a formação dos vínculos estruturantes entre pais e filhos. Maternidade e paternidade biológicas podem ocorrer de modo fortuito, não intencional. Geram filhos, mas não produzem necessariamente pais e mães. A biologia não garante a parentalidade. Neste sentido amplo, filhos biológicos precisam também ser adotados. Que sejam a mãe e o pai que o conceberam. Ou que sejam pais e mães movidos por um desejo profundo se assumir esse papel.