Reflexões acerca da experiência em seminário clínico coletivo

Artigo escrito por  Lisiane Storniolo Peres – Formação em Psicoterapia Psicanalítica – Clínica Horizontes / Disciplina: Seminário Clínico / Supervisora: Josênia Heck Munhoz

“A aranha, aquela aranha, era tão única: não parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo, um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o mundo. Contudo, sempre inacabava suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs” (Mia Couto – A infinita fiadeira em O Fio das missangas).

O ponto central para a escrita deste texto a partir do meu reencontro com o conto A infinita fiadeira, de Mia Couto.  Mas o que podemos ter em comum com esta aranha que não tecia suas teias como instinto, mas por arte?

Quando pensei no trabalho de encerramento do semestre, perpassei em pensamentos os textos lidos, aqueles que mais me geraram significados, mas faltava algo. Quando resolvi escrever sobre o seminário clínico parecia que este tema já estava ali, posto insistentemente mesmo antes de eu conseguir compreender a respeito, algo posto mesmo antes da categorização de do pensamento, talvez, podemos pensar, como algo inscrito a partir de uma experiência.

A questão é: para que serve a leitura? Para Bierman, um dos impactos da leitura sobre o leitor se refere a ética, uma vez que ela implica o sujeito na escritura. Um texto só produz sentido se o leitor apropria-se dele, quando a partir da mobilização de seus desejos pelos fragmentos do texto, é capaz de estampar sua interpretação e singularidade.

E como a leitura e o conto tecem e entrelaçam-se com nosso seminário?

Este semestre foi a primeira vez que acompanhamos apenas um caso clínico vendo sua evolução por quase três meses. O que gostaria, e espero que fique claro, é expor a percepção do nosso trabalho coletivo a partir da minha experiência.

Imago que fazer a dialogada é como contar um sonho. Podemos fechar os olhos e rever a cena, suas palavras, suas expressões. Mas não importa o quanto tentamos descrever em palavras sempre se imprime um intervalo entre a experiência vivida em sessão e a representação que se tenta fazer dela ao produz uma dialogada. Deste discurso organizado pelo terapeuta e dirigido ao supervisor e, no nosso caso, aos colegas também, causa um sentimento de estranheza. Durante a leitura das dialogadas, percebi algo estranho, um “estranho familiar”. Este Unheimlich, como nomeia Freud, onde o familiar causa estranhamento, uma produção que vai além do que a palavra pode nomear, talvez uma representação coisa?

Houve a sessão, houve a escrita da dialogada, houve a leitura, e houve este estranhamento. Não por pela sessão dialogada ser comentada, mas pela sensação causada a partir da leitura. Muitas vezes me observei tentando explicar o que significavam para mim certas partes da escrita, pois as palavras não imprimem nosso sentimento, mas se suscitam no leitor/ouvinte um desejo, este interpreta e imprime suas impressões, podendo assumir o lado de qualquer personagem, ora empático, ora não.

Desta forma, propicia a todos pensar a partir da ótica do outro. Escreve-se e compõe-se uma história. A história escrita é do escritor, assim como o sonho do sonhador, mas a construção do saber permeia todos os envolvidos. O caso trabalhado no semestre, acredito, eu teve, e continua tendo, uma evolução que me emociona. Não apenas por sua evolução em si, mas por que durante os atendimentos sinto a marca de todos, que de uma forma ou de outra, auxiliaram na produção deste espaço potencial.

O espaço potencial, como diz Winnicott, é um espaço onde se produz um brincar criativo, nele abre-se a possibilidade de simbolismo. No nosso espaço de seminário, sinto que se abriu este espaço potencial, pudemos simbolizar, criar, modificar, interpretar e resignificar não apenas as dialogadas relatadas, mas nossa forma de ver, de representar, de criar repertórios. Criou potencialidades a partir das trocas para o saber não sabido.

Embora a supervisão componha o tripé psicanalítico tendo a mesma importância dos outros dois, teoria e análise pessoal, acredito ser a que menos é estudada. A supervisão clínica coletiva é pouco trabalhada quanto sua produção cientifica e seus significados. Freud mencionou a importância da supervisão em seu texto “Sobre o ensino da psicanálise nas universidades”, de 1919. Neste texto ele aponta o tripé psicanalítico, onde diz que para conseguir dar continuidade nos tratamentos, deverá buscar supervisão e orientação de psicanalistas reconhecidos.

O afinamento da escuta, a observação e a construção da capacidade interpretativa se dão através das trocas e das significações. O olhar para o outro, a partir de um relato clínico, auxilia na compreensão do nosso papel, e qual nossa posição. É difícil, pelo menos no início, saber o que representamos para nossos pacientes, podemos assumir “as formas” de qualquer objeto, mas nunca podemos deixar de ocupar nosso lugar de terapeuta. Desta forma, a supervisão clínica permite e abre espaço para o terapeuta reconhecer seu ato, ou seja, como diz Hoffmann, é onde o sujeito autoriza-se terapeuta.

“Faço arte”, disse a aranha. E não é o que fazemos? Produzimos a arte do pensar, imaginar e modificar. Entrelaçamos as teias, a partir do tripé psicanalítico, e produzimos sentidos. O estudo constante segue o desejo do saber, um saber narcísico que só toma significado quando se constitui um “novo imaginário” e, desta forma, autoriza a apropriação deste saber.

Diziam que a aranha tecia suas teias e não lhes dava sentido. Mas a aranha sabia o sentido de suas teias, ela fazia arte. Mas a arte se expressa, assim como a leitura, no desejo de quem a vê. Às vezes, o sentido encontra-se ali, só precisamos afinar nosso olhar. Este seminário propiciou esta afinação. No final do conto a aranha é transmutada para humano onde também não tem sua arte reconhecida, no nosso caso, pudemos imprimir nossa marca e dar lugar ao terapeuta que nos habita.