Resenha sobre o Simpósio A Psicanálise Frente à Violência: do abuso sexual infantil ao feminicídio

Como coordenadora da mesa que abriu os trabalhos do Simpósio, que ocorreu em Outubro de 2018,  que tratou desse tema denso, que coloca profissionais da área da saúde e da jurídica para pensar juntas, sinto-me no dever de não deixar a discussão se encerrar por aqui.

O Instituto Horizontes convidou palestrantes e público a discutir, sem pudor, a violência, o abuso, as estatísticas, a teoria psicanalítica além do consultório. E o convite foi atendido pelos participantes que pautaram as dificuldades reais em trabalhar no âmbito da proteção às crianças, adolescentes e mulheres vítimas de violência.

Para entender as “possibilidades de avaliação e intervenção no abuso sexual infantil”, título da primeira mesa, é necessário entender conceitos, e é preciso compreender a realidade vivenciada por crianças e adolescentes que
sobrevivem, nas palavras da Psic. Elisabeth Mazeron Machado, sem voz.

Crianças que crescem aprendendo que a violência faz parte do mundo e que não tem espaço para denúncia. O abuso sexual infantil se apresenta de diversas maneiras, através do contato físico, da produção e divulgação de
imagens pornográficas, e da imposição de uma relação que a criança não tem capacidade para compreender. Os dados estatísticos alertam para uma realidade triste, estimando que uma em cada cinco meninas são vítimas de
abuso sexual, com os meninos, um em cada vinte sofrem dessa violência, sendo um número expressivo de crianças que não tem a chance de passar por uma infância digna e saudável.
Crianças e adolescentes têm seus direitos garantidos pela Constituição Federal, pelo estatuto da Criança e do Adolescente e a integração entre justiça e tratamento é fundamental para dar conta dessa questão que é de saúde
pública. Caberá à justiça proteger vítimas e punir agressores, e cabe aos agentes de saúde, incluindo psicoterapeutas e psicanalistas lidar com as sequelas, com as dificuldades familiares, com a possibilidade de reduzir os
danos causados. Há que se pensar na qualificação de profissionais que avaliarão os danos primários e secundários e receberão a vítima fragilizada, exposta e que necessita de todo cuidado psíquico no momento de identificação
do crime, ao passar pelo processo jurídico, imprescindível para o combate da violência.

Outra questão importante, diz respeito à saúde mental daqueles que atacam a infância e a adolescência, agressores que podem ou não estar diretamente envolvidos ao uso de drogas, possíveis portadores de transtornos mentais,
entre outras causas que levam ao cometimento desses crimes. Conforme dados trazidos pela Dra. Patrícia Goldfeld os peritos forenses entendem que esses delitos são graves, muito agressivos, que há agravante de risco social e que as medidas de segurança devem ser impostas de acordo com a lei.

Assim, nas palavras da Psic. Tatiana Giron Cardon, Infância é tempo de inocência, e sendo identificada a violência contra crianças e adolescentes, cabe oferecer suporte, acolhida, escuta cuidadosa, preparar a vítima para os
exames físicos, para a profilaxia e dar os encaminhamentos iniciais para então, cuidar.

O alerta contra a negligência, contra os que nada fazem e fecham os olhos para esta triste realidade foi o que ficou desse forte debate que deu inicio a esse evento que marca a preocupação com o que acontece para além das salas de psicoterapia. Que não deixemos o debate se encerrar, que seja apenas o início de estudos, dedicação e trabalho em cima da prevenção do abuso sexual infantil.

Priscila Oliveira da Cunha
Psicóloga Clínica
Texto baseado nas apresentações das palestrantes Psic. Elizabeth Mazeron
Machado, Psic. Tatiana Giron Cardon e Psiq. Patrícia Goldfeld.