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“SABATO, WINNICOTT E GRUNBERGER: UM ENCONTRO EM E​ L TÚNEL”

PREMIO SIGMUND FREUD 2014

“SABATO, WINNICOTT E GRUNBERGER: UM ENCONTRO EM E L TÚNEL”

Carlos Marcirio Naumann Machado

Palavras chave: Agressão, analidade, ansiedade de separação, controle do objeto, ferida narcísica.

Resumo

Dentre vários possíveis vínculos com referenciais psicanalíticos, o artigo busca fazer uma relação entre El Túnel com entendimentos baseados em Donald Winnicott e Belà Grunberger. O drama ilustra uma profunda imersão narcísica do protagonista, assim como uma busca de segurança frente ao caos de viver separado do objeto amoroso. A aproximação com Winnicott refere-se à ideia de que a transicionalidade tenha tido marcas profundas no personagem central de Sabato, com potentes angústias de separação. A ligação com Grunberger inside sobre a dualidade narcisismo/pulsões, nas constantes reparações da imagem fálica e, na analidade, com a tendência de dominio e de controle sobre o objeto. Há indícios de que a honra narcísica do protagonista está sempre em perigo. Em El Túnel, a dor da perda do objeto primário parece ter tomado dimensões acentuadas e esse colapso parece se reatualizar no vínculo amoroso atual do protagonista. Assim, com um forte investimento de representações ligadas à ferida narcísica (Grunberger), a novela de Sabato ilustra uma impossibilidade de separação, patologia da transicionalidade (Winnicott), em que as relações do sujeito são marcadas por temores catastróficos, e a cada ameaça de perda do objeto emergem sintomas de ciúme delirante.

Introdução

O presente artigo busca fazer uma relação entre a obra El Túnel, de Ernesto Sabato, e alguns conceitos de Donald Winnicott e Belà Grunberger. Sabato caracteriza-se por descrever a angústia do homem solitário das grandes cidades. El Túnel, história escrita em 1948, como salienta Leiva (2000), gira em torno de se perseguir o inalcançável, posto como um mágico regresso ao país da infância, onde o amor e a comunicação alcançam na memória do homem as qualidades do mítico. Esta novela é citada como exemplo de exposição de uma problemática existencialista (CODDOU, 1966).

Breve resumo apresenta-se a seguir:

Juan Pablo Castel é um artista conhecido e durante uma exposição em Buenos Aires (no Salão de Primavera de 1946) percebe e se fixa em uma moça (Maria Iribarne), enquanto ela observava atentamente um quadro seu, com o título “Maternidade”. Neste quadro uma menina aparece olhando fixamente para o oceano através de uma pequena fresta aberta (ventanita) de uma janela. Ao perceber a atenção de Maria para a tela, Castel desenvolve uma forte obsessão pela moça, a ponto de persegui-la pela cidade. Em sua busca por Maria, Castel fantasia com todas as possibilidades de conhecê-la e de como abordá-la, ao mesmo tempo em que faz uma série de reflexões que mostram sua postura frente à pintura e às exposições que prefere não ir. Quando encontra Maria, depois de uma busca incessante, Castel lhe confessa que não consegue parar de pensar nela e que a necessita de modo vital; e também pede que ela fale sobre o quadro que apreciava na exposição, ao que ela responde parecer ser uma mensagem de desesperança. Maria diz a Castel que ele não ganhará nada em vê-la, pois ela causa dano a todos que dela se aproximam. Embora Maria o tenha advertido, Juan Pablo segue completamente fixado e buscando por ela, e os dois começam uma intensa correspondência por cartas, pois Maria frequentemente viaja de Buenos Aires para uma estância. Eles mantêm uma relação constante, porém, perturbadora, já que Juan Pablo a atormenta com questionamentos sobre sua vida pessoal, pois descobre que ela é casada com um homem cego chamado Allende. Castel parece, o tempo inteiro, desejar um estado de posse absoluta e indiferenciação em relação à moça. A relação sexual, ao invés de tranquilizar Castel, o perturbava mais ainda, com oscilações entre o amor mais puro e o ódio mais desenfreado (p. 68). A situação chega ao extremo quando Castel ameaça Maria de morte, caso descubra que está sendo traído. Em uma de suas visitas à estância onde Maria se refugia, Castel conhece Hunter, primo dela e acaba, de tanto perseguir a ideia, descobrindo que os dois são amantes. O pintor fica perturbado, ele viaja até a estância e com uma faca, mata Maria Iribarne. Depois, confessa o crime ao marido de Maria e se entrega à polícia. Na prisão fica sabendo que Allende se suicidou.

Nosso artigo buscará uma aproximação com o sofrimento da figura central da trama. Observa-se então, em Castel, uma solidão ansiosa e absoluta que, na linha do presente trabalho, pode ser relacionada aos desejos de fusão e às angústias do bebê. Pensamos em dois referenciais: do campo dos fenômenos transicionais (Winnicott) e das incessantes buscas de um narcisismo perdido (Grunberger), entre tantos outros não contemplados aqui, para nos ajudar a entender o sofrimento de Castel. Conforme Coddou (1966), em linguagem próxima de uma possível aproximação com o entendimento psicanalítico da profunda imersão narcísica do protagonista, a influência sartreana em Sabato aponta uma mágica busca de segurança frente ao caos inevitável da fragilidade da condição humana.

A Novela e a Condição Humana

Conforme as colocações de Coddou (1966), em análise filosófica e literária, em El Túnel, Sabato consegue penetrar no último reduto do caráter do protagonista e, desta forma, tenta desvendar as limitações e o absurdo da condição humana; procurando chegar na ansiedade (do protagonista) de comunicar um estado básico de solipsismo; é uma história que fala da intimidade última do homem. O mundo exposto contém a solidão essencial humana, os desejos e frustrações advindos dessa solidão essencial e os elementos hostis da realidade da vida.

Na novela de Sabato, o tempo cronológico (dos relógios e calendários) é trocado por um outro tempo, anímico, medido em esperas cheias de angústias, em lapsos de felicidade, de dor e de êxtase. Castel, quando decide o último encontro com Maria Iribarne, pensa de modo encimesmado: “No sé cuánto tiempo pasó en los relojes, de ese tiempo anónimo y universal de los relojes, que es ajeno a nuestros sentimientos, a nuestros destinos, a la formación o al derrumbe de un amor, a la espera de una muerte”. (p. 135) Sobre esse tempo, Coddou (1966) afirma que Sábato, impõe outro, de ordem subjetiva: Pero de mi propio tiempo fue una cantidad inmensa y complicada, lleno de cosas y vueltas atrás, un río oscuro y tumultuoso a veces, y a veces extrañamente calmo y casi mar inmóvil y perpetuo… (p. 135).

O enredo mostra um autor com influência do existencialismo sartreano, evidenciando, na figura predominante, um sujeito com grande desejo de domínio e posse absoluta do ser amado. Sabato aponta para a solidão do homem mesmo quando em uma relação amorosa, pois entre os seres só há abismos e incompreensões. A condição do homem, em Sabato, é de uma solidão existencial.

“El motivo que lleva a Juan Pablo Castel a escribir su historia es “la débil esperanza de que alguna persona llegue a entenderme. AUNQUE SEA UNA SOLA PERSONA”. Grito angustiado que revela en el protagonista ese afán de comunicación a que aludíamos, su anhelo de ser comprendido, anhelo que persiste en él, aun después de dar muerta a aquella con quien estuvo más cerca de “comunicarse”: conserva una esperanza, aunque sea débil. Ve a la mujer como una perspectiva, poderosa y vasta, de realización: sólo ella le brinda la posibilidad de dar salida a la enorme fuerza que latía en él. Más aún: notando que el reencuentro es imprescindible, se dice varias veces en voz alta: “eso es necesario, eso es necesario””. (CODDOU, 1996, sp).

Sendo a Psicanálise um conhecimento que busca aprofundar os labirintos do inconsciente e a manifestação deste na vida de relações, os estudos da transicionalidade contidos nos trabalhos de Winnicott, assim como aqueles de Grunberger, referentes aos estados narcísicos, parecem-nos fundamentais para entender o funcionamento e o sofrimento humano, que se caracteriza, de modo evocativo, pelas buscas inerentes a cada sujeito.

Podemos supor que tais buscas aparecem nas obras de arte, seja na música, na literatura, pintura, em qualquer manifestação artística.

Uma Zona Intermediária

Para Winnicott, muitas coisas, tradicionalmente tidas como inatas, tiveram um começo. No início da vida, a relação do sujeito e seu entorno (bebê/mãe) produzem uma gama de fenômenos, denominados transicionais, que são a matriz das relações sociais e afetivas deste sujeito. Quando tenta aprofundar simbolicamente a questão do viver em um lugar – e fazer a indagação de que lugar é este – Winnicott (1975) faz o célebre questionamento: “Temos aqui, então, dois lugares, o interior e o exterior de um indivíduo. Mas será que isso é tudo?”. (p. 145).

Thomas Ogden (1996) nos diz que no centro do pensamento de Winnicott o sujeito não existe nem na realidade, nem na fantasia, mas em um espaço potencial entre as duas. No pensamento de Winnicott, o sujeito humano é criado em um espaço entre o bebê e a mãe e esta criação envolve tensões dialéticas entre unidade e separação, entre internalidade e externalidade. O objeto transicional (e toda a transicionalidade vida afora) é uma extensão do mundo interno e, ao mesmo tempo, possui uma existência real, externa, palpável. Citando Winnicott (1975):

O objeto constitui um símbolo da união do bebê e da mãe (ou parte desta). Esse símbolo pode ser localizado. Encontra-se no lugar, no espaço e no tempo, onde e quando a mãe se acha em transição de (na mente do bebê) ser fundida ao bebê e, alternativamente, ser experimentada como um objeto a ser percebido, de preferência a concebido. O uso de um objeto simboliza a união de duas coisas agora separadas, bebê e mãe, no ponto, no tempo e no espaço, do início do seu estado de separação (p. 135).

Trazendo a ideia de que há sujeitos que não conseguem entrar em contato consigo mesmos, e, de outra forma, há aqueles que só ficam dentro de si mesmos, Winnicott refere/ que entre esses extremos, a maioria de nós vive numa zona intermediária. Ou seja, entre os dois extremos, há uma vasta zona que é, considerando-se a passagem do tempo, a sequência natural daqueles fenômenos primitivos que o autor dá o nome de transicionais.

Nesse fenômenos que Winicott deposita a origem da capacidade simbólica do sujeito. Há para o autor, uma aproximação entre o gesto criativo do adulto com a potencial e nascente criatividade do bebê humano. Colocando prioridade máxima no ambiente e salientando que determinados padrões repetitivos, muitas vezes considerados como herança genética, tiveram um começo, em Winnicott, o brincar espontâneo da criança pequena não intoxicada e nem abandonada pelo entorno, conduz naturalmente à experiência cultural e, assim, constitui a pedra fundamental de se poder fruir a vida nessa terceira área – nem interna, nem externa – esse espaço transicional que constitui a vida cultural e de relações. “Refiro-me à área hipotética que existe (mas pode não existir) entre o bebê e o objeto (mãe ou parte desta) durante a fase do repúdio do objeto como não-eu, isto é, ao final da fase de estar fundido ao objeto.” (WINNICOTT, 1975, p. 149).

Na narrativa de Sabato, o narrador/protagonista Castel, age como se Maria Iribarne fosse sua, mas com um constante perigo de perder esta posse. Entendemos que a produção deste comportamento está relacionada a uma espécie de “motor” interno que o tira da posição de homem e o transforma numa criança desamparada, insuficiente e controladora. Não há espaço intermediário na experiência afetiva de Castel, ou seja, o colapso já aconteceu. O medo do colapso, pano de fundo constante do personagem central, vem de longe e, talvez, esteja vinculado ao nome do quadro exposto, Maternidade. Conforme Winnicott, “poder-se-ia dizer que, com seres humanos, não pode haver separação, apenas uma ameaça dela, e essa experiência é máxima ou minimamente traumática, conforme a experiência das primeiras separações” (1975, p. 150).

A citação abaixo corrobora o desespero de Castel com a possibilidade de separação e evidencia a impossibilidade de um espaço criativo entre os dois seres.

Pero esos momentos de ternura se fueron haciendo más raros y cortos, como inestables momentos de sol en un cielo cada vez más tempestuoso y sombrío. Mis dudas y mis interrogatorios fueron envolviendo todo, como una liana que fuera enredando y ahogando los árboles de un parque en una monstruosa trama (SABATO, 2007, p.71/72).

Em seu trabalho sobre as origens do concern (capacidade de preocupação ou consideração), Winnicott (1990a) propõe duas mães. A mãe-ambiente proporciona o seguimento da linha de vida, a afeição e a sensualidade. Winnicott induz a uma separação dessa função com o mundo pulsional. A mãe como objeto é que está ligada à contenção da pulsão, à imperiosa sobrevivência aos “episódios dirigidos pelo instinto, que agora adquiriram a potência máxima de fantasias de sadismo oral e outros resultados da fusão” (WINNICOTT, 1990a, p. 73). A mãe-objeto winnicottiana está vinculada à intrusividade da pulsão. À capacidade de conter, lapidar e devolver as identificações projetivas do bebê. O autor refere que se a mãe-objeto não sobrevive (psiquicamente) ou, se a mãe-ambiente não pode prover oportunidades para reparação, a capacidade de se preocupar vai cedendo lugar a ansiedades e defesas arcaicas como ‘splitting’ e desintegração.

Em outro estudo, também publicado originalmente em 1963, Winnicott (1990b) entra em contato com a questão da comunicação e com a expressão do sujeito no mundo, explorando principalmente a ideia das relações de objeto, desde quando a criança deixa para trás a área da onipotência como uma experiência de vida. Ideias semelhantes estão contidas nos trabalhos de Grunberger (1979), sobre a fenomenologia do narcisismo. Winnicott considera que o núcleo pessoal do sujeito não se comunica; é algo isolado e autêntico e, esse núcleo deseja assim permanecer. Quer se comunicar, para buscar ser real (expressão do verdadeiro self), mas ao mesmo tempo, deseja a preservação de uma ideia mágica, de plenitude, contida no isolamento. Quer se comunicar, mas, ao mesmo tempo precisa manter a comunicação secreta com objetos subjetivos. Relacionando, então, com Grunberger (1979), parece que Winnicott (1990b) está falando, justamente, da coexistência entre as tendências narcísicas e objetais, atuando dialeticamente “vida afora” na existência do sujeito humano.

No artista podemos detectar, acho eu, um dilema inerente, que pertence à coexistência das duas tendências, a necessidade urgente de se comunicar e a necessidade ainda mais urgente de não ser decifrado. Isso nos faz contar com o fato de não podermos conceber o artista chegando ao fim da tarefa que ocupa sua natureza. (WINNICOTT, 1990b, p. 168).

 O Universo Narcísico

Buscamos agora algumas considerações sobre Belà Grunberger, autor que se ocupa exaustivamente do estudo dos fenômenos narcísicos e, da sua obra, para esse artigo, destacamos os trabalhos sobre a analidade (1979a), sobre a imagem fálica (1979b), e sobre a dualidade narcisismo-pulsão (1979c). Em qualquer página de El Túnel que possa ser aberta, ao acaso, o leitor verá algo relacionado a um sentimento de insuficiência do protagonista (imagem fálica depauperada) associado às tentativas pulsionais pertencentes ao território da analidade (controle e domínio).

A pressuposição básica contida na obra de Grunberger evidencia que uma das buscas humanas fundamentais refere-se ao estado elacional, denominação do autor, para designar plenitude. Esse estado representaria sensações anteriores ao nascimento, perdidas nesse momento e que a mãe (naquilo que compreende a função materna) tentaria prolongar ao máximo. Ou seja, diante da insuficiência ao nascer, verdadeira castração primária e avassaladora, a mãe (suficientemente boa) tentaria, então, reconstituir, simbolicamente, a ideia desse estado de plenitude ao bebê.

Para Grunberger (1979c) o fator narcisista é eminentemente dialético, pois não existindo no estado puro, está obrigatoriamente associado a outros fatores de colorido relacional e afetivo. O autor considera que a distinção (e, talvez, as semelhanças) entre as duas perspectivas é que a perspectiva pulsional é utilizada para buscar a perspectiva narcisista. Assim a união mãe-bebê, advinda do estado narcísico, desembocaria numa relação movida pela pulsão a qual objetivaria um retorno à antiga perspectiva. Cada sujeito fará a sua síntese específica destas duas perspectivas, o que, dará consistência a aspectos estruturais e caracterológicos individuais. Então, se o estado pré-natal sobrevive em cada um sob a forma de narcisismo primitivo, o equilíbrio narcisista necessário estará sob a égide do aparelho instintivo encarregado de buscar a restauração do antigo sistema.

O homem se encontrará ao nascer, por uma parte, como detentor de sua herança narcisista cujo suporte, ligado à vida fetal, lhe foi retirado e, de outra parte, é portador de um aparelho pulsional que ainda não funciona, mas que está em estado latente, com uma tensão pulsional precoce indubitável. O bebê se encontra, assim, em um dado período, separado dos dois mundos de uma só vez, em uma escuridão sombria de uma terra de ninguém existencial, no que ele se aferra desesperadamente à sua mãe, ou melhor, no que ela representa para ele nesse momento: uma possibilidade de prolongamento de seu estado narcisista pré-natal e, ao mesmo tempo, de acesso e integração no novo universo de base pulsional. (GRUNBERGER, 1979c, p. 272).1

No estudo deste autor, há a ideia de que, para o inconsciente, a completude narcisista possui o valor de uma divinização, qualquer que seja o grau objetivo de completude e a fase da vida. Grunberger (1979a) salienta que o narcisismo atravessa, inalterável em sua essência, todos os estágios pulsionais, utilizando os modos diversos que as sucessivas fases colocam à sua disposição. O sujeito buscará sempre “poner a salvo su honor narcisista” (p. 144).

O desejo de posse absoluta conduz Castel a submeter Maria a uma tortura incessante, com interrogatorios infindáveis, em que ideias de traição estão em primeiro plano. Ele questiona sobre tudo, sobre silêncios, seus olhares, suas palavras perdidas, seus amores antigos, etc. A sempre frustrada intenção da posse absoluta e do submetimento total do objeto, leva este personagem ao desespero completo, com sentimentos de impotência e de fracasso. Estamos no territorio da analidade, fazendo uma aproximação da visão fenomenológica com aportes instintivistas, algo que, na obra Grunberger (1979a), é feito com naturalidade e maestria. Castel utiliza permanentemente um padrão de “absorver” e “digerir” o objeto amado. O recurso pulsional objetiva a completa trituração do objeto. Esse círculo maligno, parodiando Winnicott (1990a) pelo negativo, parece objetivar um crescimento da imagen fálica de Castel. Ou seja, o submetimento (do objeto) sem fim objetivaría (ilusoriamente) um estado fusional e esse a plenitude ou o solipsismo absoluto. A característica essencial da relação objetal anal reside no controle do objeto, controle que vale ao sujeito o restabelecimento da integridade narcisista colocada em perigo no estágio precedente. Enquanto que o oral busca a unicidade e a autonomia narcisista, o anal tenderá a buscá-las por outros meios, fundamentalmente de controle e domínio. O essencial para o sujeito é ocupar, ante o objeto e ante a si mesmo, uma posição de superioridade, que ele tratará de salvaguardar a qualquer preço, tanto mais que ela representa, além da questão pulsional propriamente dita, uma referência narcisista positiva.

A necessidade de manter intacta essa posição, se converte, assim, em uma finalidade, que ultrapassa esta questão.

Un día la discusión fue más violenta que de costumbre y Llegué a gritarle puta. María quedó muda y paralizada. Luego, lentamente, en silencio, fue a vestir se detrás del biombo de las modelos; y cuando yo, después de luchar entre mi odio y mi arrepentimiento, corrí a pedirle perdón, vi que su rostro estaba empapado en lágrimas. No supe qué hacer: la besé tiernamente en los ojos, le pedí perdón con humildad, lloré ante ella, me acusé de ser un monstruo cruel, injusto y vengativo. Y eso duró mientras ella mostró algún resto de desconsuelo, pero apenas se calmó y comenzó a sonreír con felicidad, empezó a parecerme poco natural que ella no siguiera triste: podía tranquilizarse, pero era sumamente sospechoso que se entregase a la alegría después de haberlo gritado una palabra semejante y comenzó a parecerme que cualquier mujer debe sentirse humillada al ser calificada así, hasta las propias prostitutas, pero ninguna mujer podría volver tan pronto a la alegría, a menos de haber cierta verdad en aquella calificación. (SABATO, 2007, p. 71). Pero esos momentos de ternura se fueron haciendo más raros y cortos, como inestables momentos de sol en un cielo cada vez más tempestuoso y sombrío. Mis dudas y mis interrogatorios su racionalidad diríamos nosotros fueron envolviendo todo, como una liana que fuera enredando y ahogando los árboles de un parque en una monstruosa trama (SABATO, 2007, p.71/72).

Esses aspectos brutos do instinto, na obra de Sabato, evidenciam um Juan Pablo Castel que busca desesperadamente alguém com uma existência semelhante a sua. O que significaría esperança contra o caos, além da compreensão e da superação de uma solidão básica. Desejando esse encontro absoluto, tudo o que venha a adiá-lo ou a impedí-lo provoca estados de desespero e ameaça de colapso. E, de forma oposta, todo o pequeno detalhe que vislumbre a possibilidade de completude enche o protagonista de felicidade. Por exemplo, a primeira carta recebida tem a simples assinatura: “Maria”, de modo que Juan Pablo devaneia: “esa simplicidad me daba una vaga idea de pertenencia, una vaga idea de que la muchacha estaba ya en mi vida y de que, en cierto modo, me pertenecía” (p 55). Influenciado pelos trabalhos de Ferenczi, Grunberger (1979b, c) propõe que, mesmo o desejo sexual no adulto, imerso, já, nas constelações edípicas, estaria em um nível profundo obedecendo a um desejo regressivo, de essência narcisista, de retorno ao útero materno e a um sentimento de plenitude.

Considerações Finais

Acompanhando-se bem a narrativa de Sabato percebe-se que Castel estava à espera dessa mulher. “Fue como si la pequeña escena de la ventana empezara a crecer y a invadir toda la tela y toda mi obra”. (2007, p. 15). O estado de indiferenciação, busca alucinante de Castel, fica bem evidente: “la reconocí inmediatamente; podría haberla reconocido en medio de una multitud. Sentí una indescriptible emoción. Pensé tanto en ella, durante esos meses, imaginé tantas cosas, que al verla, no supe qué hacer”. (2007, p. 15). A transferência maciça estava estabelecida: “Sentí que el amor anónimo que yo había alimentado durante años de soledad se había concentrado em María”. (2007, p. 58). Por hipótese, em El Túnel, a dor da perda do objeto primário tomou dimensões acentuadas. Assim, com um forte investimento de representações ligadas à ferida narcísica (Grunberger), a novela de Sabato ilustra uma impossibilidade de separação, patologia da transicionalidade (Winnicott), em que as relações do sujeito são marcadas por temores catastróficos, e a cada ameaça de perda do objeto emergem sintomas de ciúme delirante. Uma passagem do livro que, nos parece, reúne a questão transicional com a narcísica pode ser exemplificada no sonho de Castel, descrito de maneira ímpar pela genialidade do escritor:

Tuve este sueño: visitaba de noche uma vieja casa solitária. Era una casa en cierto modo conocida e infinitamente ansiada por mi desde la infância, de manera que al entrar em ella me guiaban algunos recuerdos. Pero a veces me encontraba perdido em la oscuridad o tenía la impresión de enemigos escondidos que podían asaltarme por detrás o de gentes que cuchicheaban e se burlaban de mí, de mí ingenuidad. Quiénes eran esas gentes y qué querían? Y sin embargo, y a pesar de todo, sentía que en esa casa renacían em mí los antiguos amores de la adolescencia, con lós mismos temblores y esa sensación de suave locura, de temor y de alegría. Cuando me desperté, comprendí que la casa del sueño era María. (SABATO, 2007, p. 59).

Para Castel, ao início da trama, já estava escrito esperar quem se adequaria a exercer uma função já conhecida, não elaborada e permanentemente inacabada. O que poderia restar a Juan Pablo Castel? Como fazer um arranjo que pudesse contemplar as exigências (pulsionais e narcísicas) de posse, de dominação, de vingança e de triunfo sobre o objeto fundamentalmente necessitado? Somente exercendo, sobre o objeto, uma máxima dominação de ordem anal avassaladora, digerindo e aniquilando o objeto, numa ilusória tentativa de reconstituir a essência perdida. Assim, com ansiedades primitivas persecutórias e intensa utilização de identificações projetivas, a impressão é de que Castel, ao início do drama, na exposição artística de 1946, vive uma “pesca de espera”, com anzol e isca, aguardando a fisgada.

Yo no decía nada. Hermosos sentimientos y sombrías ideas daban vueltas en mi cabeza, mientras oía su voz, su maravillosa voz. Fui cayendo en una especie de encantamiento. La caída del sol iba encendiendo una fundición gigantesca entre las nubes del poniente. Sentí que ese momento mágico no se volvería a repetir nunca. “Nunca más, nunca más”, pensé, mientras empecé a experimentar el vértigo del acantilado y a pensar qué fácil sería arrastrarla al abismo, conmigo. (SABATO, 2007, p. 107) Después sentí que acariciaba mi cara, como lo había hecho en otros momentos parecidos. Yo no podía hablar. Como con mi madre cuando chico, puse la cabeza sobre su regazo y así quedamos un tiempo quieto, sin transcurso, hecho de infancia y de muerte. (SABATO, 2007, p. 108). – Qué vas a hacer, Juan Pablo? Poniendo mi mano izquierda sobre sus cabellos, le respondí: – Tengo que matarte, María. Me has dejado solo. (SABATO, 2007, p.140).

A fascinante narração de El Túnel poderia ter as mais diversas interpretações psicanalíticas. Por exemplo, poderíamos adentrar mais na questão do ciúme patológico e buscar com maior vigor a obra freudiana (FREUD, 1996). Ou, ainda, estudar com maior relevo a estrutura narcísica denominada de self grandioso (KOHUT, 1984). Certamente, caminhos que deixariam esse artigo mais atraente, e que ficam em aberto para um próximo trabalho.


REFERENCIAS

CODDOU, M. La estructura y la problemática existencial de El Túnel de Ernesto Sábato. Disponível em: http://www.letras.s5.com/sabato070902.htm, acesso em 07/12/2014.

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____. (1967). El Edipo y El Narcisismo. In: El Narcisismo. Editorial Trieb: Buenos Aires, 1979.

LEIVA, Angel. “Introducción”. In: SÁBATO, Ernesto. El túnel. Edición de Angel Leiva. 24ª edición. Madrid: Ediciones Cátedra, col. “Letras Hispánicas”, 2000. p. 11-48.

KOHUT, H. (1966). Formas e Transformações do Narcisismo. In: Self e narcisismo. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

OGDEN, T. H. Os Sujeitos da Psicanálise. São Paulo: Casa do psicólogo, 1996.

SABATO, E. (1948). El Túnel. 3. ed. Buenos Aires: Seix Barral, 2007.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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