freud rolado eu e o id

SOBRE O PRINCÍPIO DE PRAZER E O PRINCÍPIO DA REALIDADE

Artigo escrito por Roaldo Machado março/2017

Examinemos mais detidamente algumas proposições de Freud (O Eu e o Id, 1923b p.48), para delas retirarmos sugestões para pensarmos o assunto proposto.

Afirma Freud sobre as experiências vitais, se estas seriam vivenciadas pelo Eu ou pelo Id: isso se mostra sem sentido, pois o Id não tem como experienciar ou sofrer nenhuma vicissitude externa (ou interna) por sua própria conta, mas sempre mediado pelo Eu, que é o representante do mundo externo para o Id.

           Ora, então tais princípios, através dos seus juízos prevalentes são propriedades exclusivas do Eu. Assim os juízos de desestimação ou atribuição seriam mais sujeitos ao princípio do prazer-desprazer, e os juízos de existência e realidade mais sujeitos ao princípio de realidade. Não podemos deixar de apontar que tomamos o conceito de princípio não como um começo e sim como uma forma epistêmica de apreciar a realidade tanto externa como interna.

O Eu oscila permanentemente entre os juízos de atribuição e realidade. Quanto mais próximo o sistema representacional do Eu estiver do Id inconsciente, mais sujeito estará aos juízos regidos pelo princípio de prazer-desprazer. Tornam-se assim evidentes que os juízos de realidade e existência dizem mais respeito ao Eu preconsciente e consciente, não desconhecendo o fato de que o próprio Eu origina-se do Id.

Por que preciso de cautela nestas afirmações? Vejamos como suponho que uma vivência de dor é operada pelo Eu. Certamente o juízo de realidade e existência estará operando. Mas como o princípio de prazer-desprazer reina de uma forma relativamente absoluta, tal realidade é expulsa, tornada o não-Eu. Isto é uma operação que indica a radicalidade do juízo de desestimação ou atribuição. Se algo possui o atributo “mau” nossa tendência é expulsá-lo. Se os referidos juízos insistirem na sua radicalidade surge o descrito como forclusão, preclusão, repúdio da realidade (a Verwerfung freudiana).  O destino da representação existente será a inexistência ou mesmo algo que jamais existiu. Veja-se assim o movimento da progressiva radicalidade destes juízos sob a jurisdição do princípio do prazer-desprazer.

Na medida em que a representação da realidade é progressivamente refeita, isto é, o movimento dos juízos de atribuição até os juízos de realidade, divisa-se uma verdadeira gama de juízos transitórios surgidos desta mescla constante dos princípios de prazer-desprazer e de realidade. É provável que os sonhos abriguem-se neste espaço. Podemos até afirmar que não é possível a existência dos juízos de desestimação e atribuição sem os juízos de realidade e vice-versa. Assim se os juízos de realidade forem conduzidos ao seu máximo, atingiremos o princípio da não contradição de Parmênides e Aristóteles o que levaria a uma paralisia lógica e mental. Estaríamos impedidos de sonhar e devanear. Isto se aproxima muito do referido como “pensamento operatório” de certos pacientes.

Concluímos, portanto, que quando desenvolvemos o juízo objetivo da realidade, não podemos executá-lo sem seu correlato que é o juízo subjetivo de Eu. Eis, portanto, a prevalência do princípio da realidade. Quando tais juízos ficam mais confusionais, perdendo-se o limite do Eu e do outro, não distinguimos de uma forma mais realística o objetivo do subjetivo. Estamos, portanto, mais sujeitos ao princípio do prazer-desprazer e aos juízos mais primitivos que os representam.

Veja-se para isto a surpreendente afirmação de Freud ( 1923b p.42): em um primeiro momento essa identificação (primária) não parece ser a conseqüência nem o resultado de um investimento objetal ( o outro), pelo contrário ela é uma identificação direta e imediata, anterior a qualquer investimento de objeto ( reconhecimento do Eu e do outro). No entanto, as escolhas objetais do primeiro período sexual que se dirigem ao pai e à mãe, parecem desembocar ao longo do desenvolvimento normal nessas identificações inicias, reforçando dessa forma a identificação primária.

                Se compreendo adequadamente o sugerido por Freud, não existem identificações secundárias sem as primárias e vice-versa. Na medida em que nos deslocamos das identificações primárias para as secundárias se fará notar a jurisdição do princípio da realidade, através dos seus respectivos juízos de realidade e existência em detrimento do princípio de prazer-desprazer e seus respectivos juízos de atribuição, desestimação até a inexistência da representação. Insisto, não é possível a existência do princípio de realidade sem a existência do seu correlato, o princípio de prazer-desprazer.